domingo, novembro 07, 2010

Posei para a Playgói




Mês passado o blog fez quatro anos. Já disse tudo e mais um pouco sobre mim neste espaço, mas resolvi comemorar (atrasada, como sempre) fazendo uma brincadeira: e seu tentasse me resumir em um único post? Vi que era impossível, mas achei o exercício válido e decidi compartilhar com quem vem sempre por aqui.

Vamos lá: meu apelido de infância é Gói e toda a minha família ainda me chama assim. Minha fruta preferida é jaboticaba, delícia que quando pronunciada carrega um som que considero doce como seu sumo. E sempre que me perfumo, é também com a essência das palavras.

Sou misto de terra, ar e mar. Terra porque apesar de estar longe, me sinto como que entranhada ao solo do sertão onde nasci. Ar porque sou espécie de ave extremamente avoada, com vertigem de altura, mas que ousa se deixar levar nos voos da imaginação. E mar simplesmente porque eu o trago em meu nome: GoiMAR. E não bastasse isso, nasci sob o signo de aquário, com ascendente em peixes. Mas a vida é uma piada pronta e a verdade é que não sei nadar. Então, um dia, ao olhar encantada o oceano à minha frente, escrevi: “Seria sereia / não fosse o medo / de maré cheia”.

Minha cor predileta? Lilás. Livro favorito? Dom Casmurro. Leio por paixão e escrevo por necessidade. Gosto de imprimir memórias e histórias. Tenho a impressão de que quem não escreve se perde, se esvai, some na poeira dessa grande esteira da vida. Morre, enfim, de verdade. Pra mim a escrita é lastro. Mastro onde me agarro.

Quando à noite me deito, sempre agradeço pela coberta, travesseiro, teto, universo. Choro quase todos os dias, basta assistir um noticiário, novela, filme. E a cada nova tragédia concluo, envergonhada, que minha fé é sazonal – uma vez que sofre baixa considerável na época das grandes chuvas, quando centenas de crianças e adultos morrem nas inundações do Sul e Sudeste deste país; ou ainda quando um avião cai, um prédio desaba, um terremoto atinge um país, a seca volta a castigar o sertão e por aí vai. Nessas horas recordo versos desesperados do poema Vozes d’ África, de Castro Alves, decorados quando eu tinha 13 anos: “Deus! ó Deus! Onde estás que não respondes? Em que mundo, em qu’ estrelas tu t’ escondes embuçado nos céus?”

Reclamo exageradamente e as três coisas que mais me tiram do sério são: acordar cedo, comida fria e toalha molhada. Tenho orgulho de ser nordestina, sertaneja, lírica, lunática, solar. E isso nunca atrapalhou meu caso de amor eterno com a cidade de São Paulo que, diga-se, não é ciumenta. Ao contrário: é polígama, volúvel, libertária.

Gosto de contar histórias, fazer versos, textos e contextos. No dia-a-dia me divido, multiplico, adiciono e subtraio e, como a maioria das mulheres: não tenho tempo. Ele é que me tem e me domina numa relação doentia e passional. Mas é preciso dizer que ele, às vezes, me concede a graça de fazer yoga e ir à manicure. Há mulheres que nem isso.

Meus maiores amores são meus filhos, ambos minha razão e minha loucura. Sou um misto de mãe judia e italiana. Vivo dando sermão, arrancando os cabelos, fazendo drama, monitorando suas vidas, fazendo projeções desnecessárias, sofrendo por antecipação. Mas tento melhorar a cada dia, menos no que se refere aos sermões. Acredito que não dar sermão é um descaminho. Uma ausência de palavra, discurso, retórica. E eu me recuso a criar meus filhos sem palavra, discurso, retórica, argumentação.

Fico arrepiada com gente que diz: “Não me arrependo de nada”. Já eu me arrependo de muitas coisas. E a primeira delas é ter gargalhado numa situação muito inadequada e, com isso, ter magoado profundamente minha melhor amiga. Eu tinha nove anos de idade e até hoje tenho vontade de chorar mordendo o travesseiro quando lembro a cena: os olhos dela me fitando incrédulos, cheios de lágrimas causadas por minha colossal insensibilidade... Deus, como lamento!

Amo viajar, mas detesto fazer malas. Então, fazer o quê? Não ir? Ficar? Não ver? Não conhecer? Nem pensar: deixe-me ir, preciso andar!

Tenho medo de avião, sapo, cobra, barata, rato, aranha, morcego, mariposa. Mas sofro mesmo é com o frio. Não tenho nenhuma vontade de neve, fondue, esqui ou lareira. Aliás, lareira pode ser: mas só pra fazer charme quando a temperatura dos corpos estiver bem quente.

Adoro bebida doce, tipo vinho do Porto e batida de morango (dessas com mais leite condensado do que álcool), mas quase nunca me atrevo porque meu fígado se assemelha a um projeto mal feito, inacabado. Bastam dois goles e é batata: a tremedeira nas pernas é certa e a língua solta também. E uma vez solta, ela dispara declamando poemas de Augusto dos Anjos, Drummond e Bandeira. E vamos combinar que declamar Bandeira com voz pastosa é uma tremenda bandeira. Ninguém merece (ouvir).

Gosto de música brasileira, ODEIO feijoada, cerveja, chope e tenho ojeriza a cigarro. Prefiro um trem da CPTM lotado, na hora do pico. E se o trabalho me obriga a entrevistar alguém que fuma, eu vou. Mas me sinto arrasada, humilhada, mortificada, impregnada pela fumaça e pelo odor que abomino e, como diz o samba: “volto pra casa abatida / desencantada da vida”.

Nunca acampei. Acho o fim da picada dormir no chão por opção, ainda mais com bicho por perto. Não tenho um pingo de vontade de escalar, pular de paraquedas, bungee jump, andar de montanha russa. Isso eu deixo pra quem tem coragem. É... Minha covardia é crônica. Não fosse isso, viveria mais (intensamente) do que escreveria, como faz a maioria das pessoas.

Gosto de falar horas ao telefone, com minha irmã e com quer mais puder e quiser. Gosto de dividir a vida com meu bem, meu “Mau"(rício). Adoro lugares espaçosos e acho uma delícia usar pantufas e pijamas com estampas infantis. Gosto de livros, livraria, biblioteca, revistas, museus, arte, fotografia, vista pro mar, roda de amigos, férias, viagens de trem, documentários, seriados, making of, processos de produção, cartas, raridades, barulho de ondas quebrando na praia, pôr-do-sol, comida japonesa, cachorro quente, spaghetti, ovos mexidos, dicionários e programas literários. E se um dia aparecesse o gênio da lâmpada e me concedesse apenas um desejo, esse estaria na ponta da língua: queria meu pai de volta. Pra sempre.

Pra começo, é isso. E como já disse no poema O Amor de Janaína: “No mar e no mais: tudo é sal, saudade. Que existe, apenas, para gerar em seu ventre poemas”. E pra você que me acompanha nesta estrada virtual: muito, muito obrigada! Brindemos (no meu caso com suco) ainda por muitos e muitos anos!

Se eu fechar os olhos agora...



Tá linda essa entrevista! Gosto demais do trabalho do Edney Silvestre e fiquei muito feliz pelo sucesso de seu primeiro romance, o já premiadíssimo Se eu fechar os olhos agora, que lerei tão logo a pilha de livros ao lado da minha cama diminua um pouco.

O fato é que o também escritor Luiz Ruffato conduziu a entrevista maravilhosamente e Edney, por sua vez, abriu o coração como tem de de ser. Ambos nos presenteiam com um verdadeiro show de sensibilidade, inteligência e delicadeza. Recomendo muito, muito, muito!

terça-feira, outubro 26, 2010

Ourivesaria

Para meu pai, Pedro Dantas, que faria 66 anos hoje.

Pedro:
pedra rara.
Dia a dia lapidada
para ornar meu coração:
essa jóia de saudade...
Um rubi, uma esperança!
Que sangra, mas não se cansa,
de pulsar tua lembrança
pra te reviver em mim.

Goimar Dantas
São Paulo
26/10/2010

quarta-feira, outubro 20, 2010

Lembrete

Hoje é Dia do Poeta.
Um esteta que põe letras
nas músicas da alma.

Goimar Dantas
São Paulo
20/10/2010


E para celebrar, publico um pequeno documentário que pesquei aqui, produzido pela editora Alfaguara, como parte das comemorações pelo relançamento da obra do poeta João Cabral de Melo Neto. Os vídeos têm depoimentos de Luis Fernando Verissimo, Chico Buarque, Lázaro Ramos, Ferreira Gullar, Adriana Calcanhotto, Carlos Heitor Cony, Adélia Prado, dentre outros ilustres admiradores do poeta. Apreciem sem moderação!




terça-feira, outubro 19, 2010

A paixão e o pássaro




Eu devia ter uns 8 anos quando vi o homem alado pela primeira vez. Era um Ícaro loiro, de olhos azuis, musculoso e viril como um deus grego. Eu ainda não sabia o que era Grécia, mas quem se importa? O essencial era minha habilidade para identificar um deus quando via um, mesmo pela televisão.

Nunca mais esqueci a cena. E nem poderia, uma vez que o homem-pássaro, que atende pelo nome de Mikhail Baryshnikov, se tornou alvo de uma intensa paixonite platônica de infância que, diferentemente das demais (sim, eu tive várias), perdura até hoje. Ícaros, como todos sabem, são inacessíveis. E, talvez por isso, de nada adiantava o estilingue dos meus olhos atirar sobre ele sucessivos pedaços do meu coração.

Baryshnikov voava alto demais, completamente ignorante de meus suspiros e devaneios de menina. O passar do tempo, por sua vez, apenas intensificou o alcance de suas asas. Além de bailarino renomado, o homem-pássaro também se firmou como ator, estrela de campanhas publicitárias, celebridade. E então pude vê-lo amiúde: em revistas, filmes, programas de tevê, comerciais disso e daquilo. E era incrível observar o modo como ele pousava – e posava – ao lado de tantos mortais, que só serviam para ressaltar o brilho superior de sua plumagem.

E hoje e amanhã ele planará sobre os palcos de São Paulo, aos 62 anos, ainda lindíssimo – posto que deuses jamais envelhecem. Mas como o destino é, por vezes, um piadista sem graça, perdi o prazo para a compra de ingressos, disputadíssimos, como é comum aos espetáculos protagonizados por mitos.

Moral da história: meu Ícaro prossegue tão inacessível quanto o meu coração – hoje, particularmente, mais despedaçado do que nunca.

terça-feira, outubro 12, 2010

Vida de Maria



A dica desse lindíssimo filme de animação veio do amigo Antonio Erivan Gomes, sertanejo forte que, durante a infância, recebeu a oportunidade de romper os ciclos que poderiam apriosioná-lo a uma vida desprovida de educação e, consequentemente, liberdade para voar em busca de seus sonhos.

O problema é que muitas crianças não têm a mesma sorte de Erivan e, por isso mesmo, permanecem numa vida sofrida, muitas vezes perpetuando-a por gerações: filhos, netos, bisnetos... Todos seguindo na mesma toada que aprisiona sonhos, talentos e potencialidades.

Neste Dia das Crianças, esse filme nos ajuda a refletir sobre infância, oportunidades, educação, ciclos que podem (e devem!) ser rompidos.

Fica aqui o meu agradecimento especial ao Erivan. E também o meu desejo genuíno (ou seria ingênuo?) de que todas as crianças possam ter as oportunidades que merecem.

sexta-feira, outubro 08, 2010

Só 10 por cento é mentira



Nada como Manoel de Barros pra encerrar uma semana tão cansativa quanto essa que tive. Outubro começou quente e tudo indica que terminará fervendo. Por isso, vim aqui escrever este post, na esperança de recuperar as forças falando sobre um poeta.

Infelizmente, não conheci a poesia de Manoel de Barros na escola. A bem da verdade, demorei anos para encontrá-la na esquina das prateleiras das livrarias e na curva de algumas entrevistas que ele concedeu a jornais, revistas e emissoras de televisão.

Então, em dezembro de 2004, aconteceu: numa linda noite de luar, em pleno calor do sertão potiguar, mergulhei fundo em seu livro Poemas Rupestres e, desde então, prossigo submersa no líquido amniótico de suas palavras. Vez ou outra venho à superfície, mas só pra dar mais valor às águas pantaneiras da poesia de Barros.

O trailer acima é do premiado documentário Só 10 por cento é mentira, cujo título rende homenagem à famosa máxima de Barros, que diz assim: “De tudo o que escrevo, 90% é invenção. Só 10% é mentira”. Genial, não? Simplesmente genial.

Mas o mais absurdo dessa história é que ainda não vi o documentário. E eu gostaria muito que isso fosse mentira, pura invenção. Por outro lado, não ter visto esse filme me traz aquela sensação prazerosa de coisa boa que a gente tem certeza que está para acontecer. Sabe aquela pré-felicidade? E claro que tudo isso me lembra muito o conto Felicidade Clandestina, meu preferido da Clarice Lispector. É isso: o que me conforta é saber que essa felicidade está logo ali, na esquina, na curva de alguma locadora decente (porque nem todas, afinal, têm documentários brasileiros, mesmo que premiados), esperando por mim.

sexta-feira, outubro 01, 2010

Bethânia na intimidade



Dia desses, saí do computador após 12 horas de trabalho, liguei a televisão no Canal Brasil e deparei com o documentário Maria Bethânia – Pedrinha de Aruanda (2007), em que o diretor Andrucha Waddington retrata as comemorações, emoções, encontros e lirismos decorrentes do aniversário de 60 anos da cantora.

Não peguei o filme do começo, mas tive a sorte de poder ver cenas maravilhosas, como essa do vídeo acima, em que Bethânia conta uma história deliciosa durante um jantar na casa da mãe, Dona Canô, em Santo Amaro da Purificação. Para quem quiser ver outras cenas do documentário, é só dar uma busca no You tube, nesta página aqui.

Mas há uma cena linda que, infelizmente, parece não estar no You tube (pelo menos procurei e não achei...). Nela, numa viagem de carro, à noite, com o irmão Caetano, Bethânia pergunta: "Sabe como Fernando Pessoa chamava a lua?" Ao que Caetano responde: "Ué, ele não chamava de lua?". E Bethânia: "Não. Ele chamava de Nossa Senhora do Silêncio".

E o resto? Bem, o resto também é poesia.

Recomendo muito!

sexta-feira, setembro 24, 2010

O som e o sentido



Semana passada, dei uma entrevista para a jornalista Miriam Ramos, da Rádio USP, juntamente com o meu biografado, o editor José Xavier Cortez. O tema foi a biografia Cortez - A saga de um sonhador, que assino em coautoria com a socióloga pernambucana Teresa Sales.

O bate-papo foi delicioso e pontuado por trilha sonora escolhida por mim e por Cortez. Cada um de nós podia selecionar 3 músicas que, na minha opinião, deram um charme todo especial à conversa. Você pode ouvir a entrevista, dividida em dois blocos, clicando aqui.

Sei que deveria ter postado isso antes, mais precisamente no dia em que a entrevista foi ao ar, em 20 de setembro, mas não deu... Estou em um ritmo de trabalho muito intenso e, por isso, só consegui divulgar mesmo no meu Facebook e no twitter (coisa rápida, muito rápida).

A verdade é que ando com uma saudade danada de escrever crônicas e relatos sobre minhas entrevistas para o livro Rotas literárias de São Paulo. Espero que, nos próximos dias, eu consiga voltar a um ritmo de vida um pouco mais tranquilo.

Em tempo: o nome deste post é um plágio descarado do título de um livro do José Miguel Wisnik, um escritor/professor/ensaista que eu adoro :)

sábado, setembro 11, 2010

Para Alice



Lendo Alice Ruiz
cessam os ruídos.
Ali se é feliz.

Goimar Dantas
São Paulo
Setembro/2010



Dia desses, estive na casa da poeta e compositora Alice Ruiz. O objetivo era entrevistá-la para meu livro Rotas literárias de São Paulo. E foi um privilégio conhecer o espaço onde a poeta cria, canta, compõe. Ali, Alice expôs sua paixão por São Paulo, por seu trabalho, por seus parceiros na música, na vida, na escrita.


O jardim de Alice: paisagem/passagem estratégica entre a sala e o escritório.

Naquele espaço verdadeiramente verde, bucólico e arejado, condizente com uma casa onde vibra o som e o sentido, Alice me recebeu munida de sorriso, simpatia, sinceridade e sensibilidade – quarteto que compõe prosas inesquecíveis. E a poeta contou e encantou. De tudo um pouco. Do pouco, muito. Do muito, múltiplas sensações.

Tomamos assento na sala, próximas ao piano. E talvez por estar sempre conectada ao espírito dos instrumentos, Alice me fez ouvir música durante todo o tempo em que durou a conversa. De sua voz brotavam cânticos, cantigas de amor e de amigo, versos em meio a solfejos.

E, vez ou outra, embalada pelas melodias, pensei ter visto nos olhos de Alice um quê de mar cujas águas, serenas, não viram necessidade de rebentar na praia de suas faces.

Era um dia de calor em pleno inverno paulistano, e no campo daquele cenário, passei mais de uma hora colhendo os frutos da memória de Alice: versos e reversos fluindo na prosa de sua história. E ouvindo Alice, em meio à colheita, tive certeza: realmente nunca escrevi haikais (como ela o faz, sabiamente seguindo as regras poéticas desse estilo). O que eu faço, no máximo, é "Raio que cai" – roubando uma expressão deliciosa criada por meu bem, meu "Maurício" para definir esse tipo de poesia que ouso praticar com poucas frases.

“Raios que caem” à parte, o fato é que, ao lado de Alice, vivi uma dessas horas mágicas que jamais se perderão no vão da memória. Até porque só se perde na memória o que não foi guardado com o pulso ritmado do coração. Daí a constatação: os momentos que passei com Alice serão como os versos daquele poema que a gente sabe de (coeur).

E para saber mais sobre Alice Ruiz, basta clicar aqui. Encerro deixando vocês com uma música linda que Alice compôs com um de seus parceiros mais frequentes: Arnaldo Antunes.

sexta-feira, setembro 10, 2010

quinta-feira, setembro 02, 2010

Dilacerado



E essa dor,
doravante?
A-dor-me(re)-ce-rá um instante?


Goimar Dantas
São Paulo
25/08/2010

segunda-feira, agosto 30, 2010

A morada de Mário


Detalhe das teclas do piano que pertenceu a Mário de Andrade. O poeta utilizava o instrumento para ministrar aulas particulares às moçoilas paulistanas, nas décadas de 20 e 30 do século passado.

Por mais diferentes que sejam as pessoas que entrevisto para o meu livro Rotas Literárias de São Paulo, todas têm algo em comum: o amor, a admiração e o respeito por Mário de Andrade, sem dúvida um dos artistas mais admiráveis que esse país já teve. Músicólogo, poeta, romancista, crítico de arte, pesquisador do folclore nacional e, não bastasse isso, um verdadeiro apaixonado pela cidade de São Paulo.


Outro ângulo do piano de Mário de Andrade...

Mário teve participação efetiva na histórica Semana de Arte Moderna de 22, que mudou para sempre o rumo das artes no Brasil. Foi um dos grandes pensadores e realizadores do cenário cultural brasileiro e paulistano, nesse último caso, por meio de seu trabalho à frente do Departamento Municipal da Cultura de São Paulo.



A casa de Mário de Andrade (primeira à esquerda), onde hoje funciona a Oficina da Palavra, fica no bairro da Barra Funda, na famosa Rua Lopes Chaves, tão presente em inúmeros de seus textos e poemas. Para saber mais sobre as atividades da Oficina, cujos cursos são todos gratuitos, clique aqui.


Fiz questão de fotografar a placa da rua.



Essa estante, juntamente com o piano, são os únicos objetos originais da época em que Mário viveu na Casa. Já os documentos, livros e demais móveis que compõem o acervo do escritor estão no Instituto de Estudos Brasileiros (IEB), na Universidade de São Paulo (USP).
A Casa, entretanto, é muito visitava por fãs do poeta, que desejam conhecer de perto o local onde Mário passava seus dias e noites: sempre escrevendo, tocando, registrando ideias, recebendo amigos.


Também visitei o porão da Casa, onde tive acesso a essas raridades: fotografias de Mário, à espera de patrocínio para uma exposição permanente.


Acima, vemos mais um quadro trazendo uma fotografia do poeta, envolta em plástico bolha, no porão da Casa...


Reproduções de fotos do autor de Paulicéia Desvairada e Macunaíma..

Este trabalho está me dando a oportunidade de conhecer o obra e a vida de Mário de forma mais detalhada, o que é ótimo. Tenho lido pilhas de livros dele e sobre ele. Um mergulho essencial numa personagem incrível e, por consequência, numa São Paulo mais lírica - que ele amava retratar em seus textos. Descobri um homem extraordinário, alvo de milhões de teses, livros, artigos, ensaios. Mais ainda falta alguém escrever "a" biografia de Mário de Andrade. Quem se habilita?

segunda-feira, agosto 23, 2010

Cordel na Cortez 2010



E essa vai para os amantes, apreciadores, curiosos e interessados nas artes que compõem a Literatura de Cordel! Começa hoje e segue até dia 28 de agosto o mais tradicional evento relacionado ao tema em São Paulo. É o Cordel na Cortez, que acontece na Livraria Cortez, localizada à Rua Bartira, 317, Perdizes.

Em sua sétima edição, o evento tem a coordenação do poeta Moreira de Acopiara e presenteia o público com uma série de palestras, oficinas, recitais, contação de histórias, entre outras atividades desenvolvidas por estudiosos, poetas, xilogravuristas, contadores de histórias e demais especialistas no assunto. Tudo isso regado a petiscos tipicamente nordestinos!

Achou pouco? Pois você ainda contará com a simpatia de toda a turma da Cortez, a começar pelo Ednilson Xavier, diretor-geral do evento, que só falta estender tapete vermelho pro público passar. Lá você também encontrará ele: o homem, o mito, o pop star José Xavier Cortez, que é o editor e livreiro mais badalado de São Paulo! Tá duvidando? Então, segura essa: só neste ano o homem foi tema de um documentário, uma biografia (que tive o prazer de escrever junto com a querida Teresa Sales) e um lindíssimo livro infantil intitulado Como um rio, de autoria da competente educadora Silmara Casadei.

É mole ou quer mais? Ok, ok, você quer mais... Então, simbora pra Cortez, homi! Tá esperando o quê?

Ah, para ter acesso à programação completa, basta clicar aqui.

Recomendo muito, muito, muito!

Confessionário



É raro escrever com tinta.
Geralmente eu uso sangue, suor e lágrimas.
Dói, mas o texto agradece.

Goimar Dantas
São Paulo,
16/08/2010

domingo, agosto 22, 2010

Bienal 2010


José Eduardo Agualusa, escritor angolano.

No último sábado, às 19h, na Bienal Internacional do Livro de São Paulo, o escritor angolano José Eduardo Agualusa compôs ótima mesa de debates com o escritor moçambicano Mia Couto, ambos mediados pelo crítico literário Manuel da Costa Pinto. Foi uma maratona chegar à Bienal no sábado, penúltimo dia do evento. Havia milhares de pessoas no Pavilhão do Anhembi e juro por tudo quanto é sagrado que, na entrada do local, temi ser pisoteada. Aquilo estava um horror. Mesmo tendo convite e credencial, era preciso passar, primeiro, por uma entrada geral que, para o meu desespero, parecia afunilar toda a população da capital paulista. Mas, no final das contas, consegui não só sobreviver como também assistir as duas mesas mais cobiçadas do dia: a das 17h, com Lygia Fagundes Telles, e a das 19h, com os africanos Agualusa e Mia Couto.


Adorei o sorriso do escritor Mia Couto...

... e também gostei demais de suas reflexões sobre língua e literatura brasileira e africana. Aliás, Couto bateu um bolão com Agualusa. Os dois são amigos de longa data e a sintonia entre ambos era incrível. Parecia jogo de volêi: um levantava e o outro cortava. Quem ganhou foi o público que, por sinal, estava afiadíssimo nas perguntas - coisa rara em eventos dessa natureza. Por sorte, havia muitos pesquisadores e amantes da literatura africana na plateia composta por cerca de 200 pessoas.

Os escritores ressaltaram o fato de nos últimos 10 anos o Brasil ter dado mais abertura aos escritores africanos de Língua Portuguesa, cada vez mais presentes nas livrarias e eventos literários realizados no país. E Agualusa foi além: para ele, esse diálogo também se deve ao interesse do governo brasileiro em estreitar relações com o continente africano: "O presidente Lula viajou várias vezes à África durante sua gestão e isso, claro, contribui para o intercâmbio de informações entre os dois países", ressaltou.

O debate abordou, dentre outras coisas, os seguites temas: reforma ortográfica; observações sobre as diferenças e semelhanças entre Brasil e África; histórias vivenciadas pelos dois autores em nosso país (todas elas deliciosas, engraçadas, comoventes!); a parceria de ambos na elaboração de peças teatrais e o romance Milagreiro Pessoal, que Agualusa acaba de concluir. O autor falou, ainda, sobre a Editora Língua Geral, que mantém no Rio de Janeiro juntamente com outros dois sócios.

O momento mais emocionante, a meu ver, foi protagonizado por Agualusa que, ao ser questionado sobre a importância do escritor angolano Ruy Duarte, morto este ano, não conseguiu segurar as lágrimas: "Ele era um grande amigo. Há 20 anos venho batendo na mesma tecla: Ruy Duarte é um dos maiores escritores da Língua Portuguesa! Não me conformo com sua morte. Sem sua presença, Angola fica mais triste e escura", afirmou, com voz embargada.


Lygia Fagundes Telles: a grande dama

E antes da mesa de Couto e Agualusa, assisti, pela segunda vez nessa Bienal, uma palestra da grande dama das letras nacionais: Lygia Fagundes Telles, 87 anos. Lygia discorreu sobre seus romances, personagens, amores, fantasmas, invenções e memórias. A autora é uma grande contadora de histórias e é sempre um deleite poder ouvi-la. Na semana passada, a criadora de romances e contos, dentre os quais destaco o genial A estrutura da bolha de sabão, meu preferido, nos falou de suas lembranças com Monteiro Lobato - um dos homenageados da Bienal. Foi lindo. Usei o gravador digital e registrei tudo, mas também gravei suas palavras no coração, como tem de ser.


Lygia, mediada pelo crítico literário Manuel da Costa Pinto (à esquerda) e o jornalista Ubiratan Brasil (à direita).

Enfim, este ano só consegui ir à Bienal dois dias, e apenas ontem pude levar a máquina para exercitar meu lado "fotógrafa". Na minha primeira visita ao evento, no último dia 13, tive de usar o celular para fotografar. Ainda não baixei as fotos. Se ficarem minimamente decentes, prometo postá-las aqui.


E lá estava eu, quase 21h da noite de sábado, cansada, mas feliz da vida por ter assistido às palestras e, principalmente, por sobreviver ao tumulto na entrada do Pavilhão. Ao que tudo indica, escapei por obra e graça do Dr. House, santo protetor do dia, que você pode ver estampado em minha camiseta:)

segunda-feira, agosto 16, 2010

Tradição lírica



O advogado aposentado Armando Marcondes Machado Jr., um dos ex-presidentes do Centro Acadêmico XI de Agosto, da Faculdade de Direito do Largo do São Francisco (USP), reuniu, durante 20 anos, um verdadeiro arsenal de informações sobre os 30 mil estudantes que, entre 1827 e 2006, se formaram nessa que é uma das faculdades mais tradicionais do país.

A pesquisa se transformou numa obra que, por assim dizer, tem um quê de proustiana, na medida em que é composta por 7 volumes e um livro extra(!), publicado em 2007, dessa vez agrupando informações e poesias dos poetas e prosadores que já passaram pelo local.


Alguns volumes da coleção escrita por seu Armando.

Machado Jr, conhecido por todos como "seu Armando", se dedicou ao projeto de forma apaixonada e abnegada. Sem ajuda financeira de qualquer espécie, em tempos pré-Lei Rouanet, patrocínios e afins, o advogado precisou esperar até a sua aposentadoria, de modo que tivesse a quantidade suficiente de horas para dedicar-se à empreitada.

Durante as duas décadas que o trabalho durou, seu Armando vasculhou pilhas de documentos e arquivos os mais diversos para levantar o máximo de informações possíveis sobre os estudantes e turmas que passaram pelas famosas arcadas da faculdade. Precisei me segurar para não chorar durante a entrevista porque, cinco minutos após iniciar nossa conversa, descobri, para meu deleite, que seu Armando foi colega de turma da escritora Hilda Hilst que, de acordo com a pesquisa de seu Armando, colou grau em cerimônia solitária, dia 19 de setembro de 1953, meses depois da maioria de seus colegas. É... Papai do céu é bom demais comigo. Amém.



Aqui e ali, a faculdade preserva bustos, fotografias de poetas, reprodução de versos em monumentos e documentos sobre os grandes autores que frequentaram o lugar. Alguns desses documentos, bem como objetos, estão expostos no pequeno museu que a faculdade mantém.


Estudantes se reúnem no pátio das arcadas mais famosas de São Paulo, em foto feita em abril deste ano.

Caminhar sob as arcadas do Largo do São Francisco é conectar-se ao espírito de grandes personalidades das letras nacionais. E não é pra menos. Basta conferir uma pequena lista de quem já estudou ali para sentir o lirismo que impera no local. Espia só a listinha: Castro Alves, Fagundes Varela, Bernardo Guimarães, José de Alencar, Raul Pompéia, Monteiro Lobato, Oswald Andrade, Vicente de Carvalho, Lygia Fagundes Telles, Hilda Hilst, Haroldo e Augusto de Campos, Décio Pignatari, Guilherme de Almeida e Menotti Del Picchia. Isso pra ficar, claro, só na esfera literária. (Nem me atrevo a falar dos 12 presidentes da república, governadores, senadores e empresários de sucesso que saíram das arcadas diretamente para o comando das principais instituições nacionais porque essa, como sabemos, é uma outra história).

Sem dúvida, a Faculdade de Direito do Largo do São Francisco compõe uma trajetória indispensável para os que, como eu, são aficionados por colecionar memórias e histórias das rotas literárias de São Paulo.

domingo, agosto 08, 2010

domingo, agosto 01, 2010

O sonho, o santo e o sorriso


Dedico esse texto à dona Maria Onélia, minha mãe, que voltou a sorrir.



Sonhei que estava deitada, com minha mãe, numa cama de casal. Era noite alta e, no teto do quarto, havia um buraco enorme por onde víamos, abismadas, milhares de estrelas se movimentando em altíssima velocidade. Como carrinhos de bate-bate em celestial parque de diversões, elas aceleravam umas de encontro às outras, se espatifando com vontade e emitindo sons agudíssimos, semelhantes ao tilintar de cristais quando se quebram.

O brilho que produziam, em contraste com o negrume do céu, originava um espetáculo ímpar, capaz de emudecer qualquer criatura – até mesmo a mim e a minha mãe. E é bom que se ressalte que não há ninguém nesse mundo capaz de nos vencer em tagarelice. Mas o fato é que aquela radiante guerra nas estrelas surtia em nós um efeito paradoxal: uma paz nitidamente superior. Evidente que qualquer palavra soaria inútil.

Despertei na madrugada, maravilhada por sonho tão bonito. Pensei em pegar um papel e anotá-lo, mas desisti. Deduzi, afinal, que era impossível apagar algo assim da mente. Mas os meandros do subconsciente são mesmo indecifráveis. Tanto é assim que no dia seguinte acordei tomada pela sensação de que tinha tido um sonho deslumbrante, mas não conseguia me lembrar de nada. Sofri essa perda arrebatadora durante horas.

E então veio a noite, que me encontrou na livraria mais incrível de São Paulo. Lá, bisbilhotando a prateleira de poesia, deparei com um exemplar de Esse ofício do verso, de Jorge Luis Borges. O livro, que eu ainda não conhecia, é, se não me falha a memória, de 2007, e reproduz uma série de palestras proferidas pelo autor de Ficções na década de 60 do século passado. A obra é um acontecimento, uma vez que as tais palestras estavam em fitas cassetes descobertas apenas há poucos anos.

Comecei a ler o livro ali mesmo e, logo nas primeiras páginas, Borges fez uma de suas incomparáveis analogias, dessa vez usando a palavra “estrela”. Então, de imediato, recordei o sonho em sua totalidade. Meu coração, tamanha emoção e alegria, adquiriu peso de pluma. Respirei fundo, enchi os olhos d’água e agradeci, em pensamento, a esse que é um dos santos de minha devoção. Com a mente voltada à reverência, entoei: “São Jorge Luis Borges, obrigada pela graça alcançada. Amém”.

E embora o Jorge a que me refiro seja diferente do de Caetano, Fernanda Abreu, Benjor e de tantos outros, vale aqui a canção. E a intenção:

sexta-feira, julho 30, 2010

Minutos de sabedoria



A escritora e jornalista chilena Isabel Allende é movida à paixão. Paixão pela arte de contar histórias. Paixão pelas causas ligadas à temática feminina. Vale muito a pena reservar um tempinho (17 minutos, sendo mais exata) para ouvir essa mulher que já viu e viveu muitas coisas e que, melhor ainda, desenvolveu sensibilidade e atenção especiais às causas verdadeiramente importantes.

Nessa palestra tão deliciosa quanto surpreendente, ela nos conduz por muitas reflexões e histórias reais, dentre elas, duas ou três que, diga-se de passagem, conseguem ser ainda mais impressionantes do que tudo o que a chamada literatura fantástica já ousou produzir... O vídeo tem legendas em português, basta clicar em "view subtitles" e selecionar este idioma. Eu recomendo muitíssimo.

sábado, julho 24, 2010

José, Pilar e um devaneio



Estou contando os dias pra assistir José & Pilar, do diretor Miguel Gonçalves Mendes. O filme aborda a relação do escritor português José Saramago com a jornalista espanhola Pilar del Rio, sua esposa durante mais de 20 anos. Eu poderia postar só o trailer do filme, já disponível no You Tube, mas preferi a matéria exibida pelo ótimo programa Entrelinhas, da TV Cultura, porque vai além e traz uma bela entrevista com o diretor.

Adoro filmes dessa natureza porque me interesso muitíssimo pelas pessoas, pelo modo como se portam no mundo, por seu processo de trabalho, suas escolhas, amores e lugares onde, por motivos vários, decidem habitar. Gosto de saber sobre suas manias, idiossincrasias, desejos, erros, acertos.

Gosto de observá-las por ângulos variados, de enveredar por seus labirintos, mistérios, memórias. Sinto prazer em acreditar que as conheço profundamente, mas também gosto quanto me surpreendem provando que isso é impossível. Quero saber quais suas músicas e livros preferidos, conhecer seus ritos, identificar seus gestos mais repetidos, suas qualidades, defeitos, segredos. Gosto tanto do ser humano que me espanto.

A vida de uma pessoa me interessa tanto quanto sua obra. No que se refere a escritores, por exemplo, adoro descobrir que fulano escreveu determinado texto porque estava apaixonado por beltrana ou influenciado por isso ou aquilo. Gosto de cruzar informações, de intertextualidades, influências. Gosto de ler cartas trocadas entre pessoas que já se foram ou que ainda vivem (mas que mal se lembram de que um dia escreveram as tais cartas). E é mágico sentir que o que descrevem entra pelas retinas da janela da minha alma como se fosse um filme, um livro, uma cena de um grande clássico.

Gosto de resgatar histórias empoeiradas, adormecidas no interior de gavetas, baús, caixas, corações. Gosto de trazer à tona lembranças repletas de carinho, amor, dor, humor. Histórias que corriam o risco de serem para sempre apagadas das linhas do mundo, não fosse a minha intervenção tão indiscreta.

Por isso escrevo: para tentar eternizar pessoas, histórias, coisas, eventos. Pura pretensão, eu sei... Mas uma pretensão que me faz muito, muito feliz.

Em tempo: dedico esse devaneio a todos os Josés e Pilares do mundo.

sexta-feira, julho 23, 2010

Yuri superstar



Quem acompanha esse blog sabe: meus filhos têm lugar cativo por aqui. E já faz um tempo que eu estava querendo postar a vertente "Billy Eliot" de Yuri, meu primogênito. Os três leitores fiéis deste blog já devem ter lido em minhas confissões anteriores: eu não danço nada, infelizmente. Porém, Yuri parece ter herdado a cadência, a malemolência e a capacidade espetacular de requebro de boa parte da minha família que, tipicamente nordestina, costuma se esbaldar com extrema categoria pelos arrasta-pés da vida.

A coisa é sofisticada: a maioria arrasa no forró, mas tenho primas e primos que vão além e mandam ver em diversas modalidades. Nesse contexto, minha ausência de molejo nas pistas pode ser encarada como um daqueles mistérios verdadeiramente insondáveis, que insistem em residir entre o céu e a terra de minha vã filosofia. Tergiversações e lamúrias à parte, tá aí o vídeo mais recente que meu Fred Astaire e seus amigos inseriram no You Tube. Trata-se da apresentação do grupo de dança que acabaram de criar, denominado: "Star Company", especializado na mais nova modalidade da dança contemporânea adolescente: o free step.

É também o primeiro vídeo estilo "superprodução" dos meninos, uma vez que foi gravado em duas locações: nas dependências do condomínio onde moramos e no cenário exuberante do Parque Villa-Lobos, em um lindo dia de sol deste inverno. E lá no Villa-Lobos, os integrantes do grupo se apresentam e finalizam o vídeo com o que chamam de "combo" (que é quando todos dançam juntos). Enfim, um deleite pra mãe coruja nenhuma botar defeito.

domingo, julho 18, 2010

Do sentido das coisas




Um poema poderá, quem sabe,
aquecer esse coração que pulsa trêmulo
de frio.
Então será como aquele cobertor que o pai,
tomado de amor, espalhou sobre a filha
numa madrugada fria da infância.
O cobertor era roto.
Mas o amor do pai...
Esse era de um acolchoado nobre o suficiente para aquecer a menina.
Trinta anos depois, o poder e o calor daquele amor
enchem uma recordação de sol e saudade.
Uma memória rara.
Um poema.
Finalmente o inverno faz sentido.

Goimar Dantas
São Paulo
18/07/2010.

domingo, julho 04, 2010

Memórias de Lobato


Com Dona Hilda, ao centro, e parte da equipe da biblioteca Monteiro Lobato.

Aos seis anos, toda a minha fantasia morava no Sítio Pica-Pau Amarelo, originalmente criado por Monteiro Lobato. Mas, como naquele tempo eu não tinha acesso a livros, meu Sítio era mesmo a reinvenção da obra do grande escritor brasileiro que, justiça seja feita, foi levada às telas de maneira genial pela Rede Globo de Televisão, no final dos anos 70.

Ainda hoje fico comovida quando lembro as inúmeras vezes em que desejei ser Emília, a boneca falante movida à inteligência e impetuosidade. Devo muitas de minhas peripécias infantis a Lobato. Por isso, foi com emoção imensa que, em 30 de junho último, em uma das salas da Biblioteca Municipal Monteiro Lobato, localizada na Vila Buarque, em São Paulo, bati um papo delicioso com uma das eternas crianças marcadas pelo universo originário da obra Lobatiana. Trata-se de dona Hilda Villela Junqueira Merz, hoje com 86 anos.


A equipe leva Dona Hilda para conhecer a graciosa instalação "O poço do Visconde".

Como tantas crianças de sua época, Hilda passou a infância lendo as obras de Lobato e escrevendo ao autor inúmeras cartas que ele, gentilmente, respondia. A diferença entre Hilda e as demais crianças que se correspondiam com o autor é que, em 1937, Hilda, ainda adolescente, e levada à editora de Lobato pelas mãos do avô, não apenas conheceu o escritor como se tornou amiga do criador de Reinações de Narizinho até sua morte, em 04 de julho de 1948.


Mobiliário, caricaturas, fotografias, livros, bonecos e outros itens compõem o Museu Monteiro Lobato, uma das atrações da biblioteca.

Hilda contou que a primeira vez em que o viu a emoção foi tamanha que não conseguiu falar. Porém, pouco tempo depois, Lobato já estava almoçando na casa do avô de Hilda, estreitando relações com a família da menina e elogiando muitíssimo a habilidade do cozinheiro da residência que, nas palavras do escritor, era “melhor do que Tia Nastácia”.


Pedaço da costela de Lobato, relíquia que leva às crianças ao delírio na biblioteca Monteiro Lobato.

A cada aniversário de Lobato, Hilda costumava presenteá-lo com balas caseiras de caramelo, que ele adorava. Após a morte do autor, Hilda se tornou amiga de dona Purezinha, esposa do escritor, e também de Marta, filha de Lobato – ambas já falecidas. Hoje, mantém amizade com Joice, neta do criador do Reino das Águas Claras.


Acima, as várias faces de Lobato. Abaixo, fotografias dos filhos do escritor, em diferentes fases.

Hilda conhece tudo e mais um pouco sobre a obra e a vida de Lobato e, por conta disso, trabalhou durante 20 anos na Biblioteca que leva o nome do autor de O saci. Aliás, fica aqui meu agradecimento à Rita, à Kazue, ao Oiram e ao Nelson, que compõem parte da equipe da Biblioteca e que contribuíram para tornar a manhã do dia 30 inesquecível.

De minha parte, vou levar esse encontro em meu coração para semrpe. E será com grande alegria que irei falar mais sobre ele em meu livro Rotas Literárias de São Paulo.

Em tempo: hoje faz 62 que Monteiro Lobato nos deixou. Para saber mais sobre a incrível Biblioteca que leva seu nome, especializada em literatura infantil, clique aqui.

segunda-feira, junho 28, 2010

Brincando nas linhas do Senhor




Se este domingo fosse um poema
eu lhe daria por tema linda história de amor.
Porque na vida do poeta em texto se tece
o que não acontece.
É a fé cega na palavra, sua mística religião.
Em cada verso: um universo.
Mais que louvor: salvação.

Goimar Dantas
São Paulo.
27/06/2010

domingo, junho 27, 2010

Vivendo e aprendendo a lutar



No último sábado, meu filho Yuri, 14, teve mais uma prova de que, na vida, não se consegue nada sem muita luta.



E depois de 10 delas, no exame de karatê, meu garoto conquistou a faixa marrom ponta branca. Como sempre acontece nesses exames, por motivos de nervosimo materno maior, todas as fotos das lutas ficaram tremidas, horríveis.



Necessário enfatizar: as vitórias de Yuri se devem muito à dedicação de seu professor e xará: Iuri.



E depois do sufoco, a foto descontraída com o amigo Pedro. Daqui a seis meses, caso Yuri esteja preparado, é a vez de tentar a faixa marrom, com a qual cada aluno deve permanecer um ano. Depois disso, finalmente vem a faixa preta, que deverá ser obtida em exame realizado na cidade de Guararema. Exame esse que, pelo que sei, leva qualquer mãe, no mínimo, ao desmaio. Alô, fabricante de Maracujina? Vou começar meu estoque e aceito doações, obrigada!

segunda-feira, junho 21, 2010

Marcelino: para além do pão e vinho




O escritor Marcelino Freire, pernambucano radicado em São Paulo desde o começo da década de 90, é um dos mais entusiasmados agitadores culturais da cidade. É também autor de diversos livros, dentre eles, Contos negreiros, Prêmio Jabuti 2006 na categoria Contos, e os ótimos Angu de Sangue e EraOdito, marcados pela narrativa crítica e original. E na última quarta-feira, 16, Freire me concedeu entrevista essencial para meu novo livro Rotas literárias de São Paulo.

Organizador da Balada Literária, que há cinco anos reúne tanto grandes nomes quanto revelações da literatura em evento realizado na Vila Madalena, em São Paulo, Freire é uma dessas pessoas que parece ter o dom da onipresença. Desde que chegou à pauliceia desvairada, o escritor trabalhou duro, bateu em mil portas, editou seus primeiros livros e, todas as manhãs, peregrinava pelas livrarias oferecendo-os aos livreiros.

Aos poucos, foi conquistando leitores e a admiração dos profissionais do ramo editorial e livreiro. José Luiz Goldfarb, curador do Prêmio Jabuti e ex-proprietário da famosa livraria Belas Artes - e a quem entrevistei há algumas semanas -, costuma dizer que os autores que mais vendeu em seus tempos de livreiro foram Freire e Paulo Coelho. “Ambos iam à Belas Artes oferecer seus primeiros livros que, na época, eram editados por eles mesmos. E eu vendia horrores. Lembro que eu ligava pro Marcelino e dizia: traga mais exemplares porque o que eu tinha aqui já acabou”.

Graças ao seu talento, trabalho e perseverança, Freire é uma das poucas pessoas que conseguem, hoje, viver de literatura no Brasil. Está sempre recebendo convites para ministrar palestras, oficinas, organizar e participar de debates e cursos. Também colabora divulgando e prestando consultoria a uma série de eventos ligados ao mundo das letras.

Em cerca de uma hora e meia de conversa, regada a café para ele e chá de hortelã para mim, Freire discorreu sobre as diferenças entre Recife e São Paulo, bem como suas primeiras impressões e dificuldades logo que chegou à capital paulista. Mais do que isso, detalhou sua saga para se firmar no concorrido mercado literário, revelou seus livros e autores preferidos e, como não poderia deixar de ser, contou quais rotas literárias frequenta/frequentou. Para meu espanto, falou até mesmo sobre uma certa preguiça que jura possuir, mas de cuja existência, confesso, duvidarei para sempre.

Saí da entrevista feliz por ter conseguido acessar tantas memórias e lembranças dessa figura impressionante que é Freire. Todas elas carregadas de ensinamento e beleza. E é por essas e outras que quanto mais o tempo passa, mais consolido a certeza: no fundo e na superfície, ter escolhido um ofício que me permite ouvir histórias para depois ter o prazer de passá-las adiante foi a decisão mais incrível e bem aventurada que tomei na vida.

Deixo vocês com o vídeo acima, em que Marcelino lê, maravilhosamente, um conto de sua autoria, o qual considero um dos mais belos e impactantes. Trata-se de "Totonha", escrito após o autor assistir a uma dessas reportagens sobre idosos que “ganham” a oportunidade de aprender a ler devido a algum tardio programa governamental. Para saber mais sobre Freire, acesse seu blog EraOdito. Basta clicar aqui. E boa viagem!

quinta-feira, junho 17, 2010

O maior amor do mundo




Meu rei completa 14 anos hoje e, sinceramente, pra mim ele é "o" cara. Amo vê-lo tocando bateria (instrumento que estudou por mais de três anos), andando de skate, dançando free step... Semana que vem, fará exame de troca de faixa, no karatê, dessa vez para obter a faixa marrom ponta branca. Mas, para isso, terá de passar por cerca de 4 horas de provas, 10 lutas, 500 polichinelos, não sei quantos abdominais e flexões... Meus nervos ficam em frangalhos, mas sei que tudo sempre dá certo no final.

Yuri e eu temos muitas coisas em comum. Já em outras, somos totalmente distintos... E por isso passamos o dia discutindo, argumentando, debatendo, exercitando a oratória. É cansativo, mas sei que isso vai ser importante para o seu futuro. Afinal, estou preparando meu filho para que ele vença, sempre, pela palavra. Pelo discurso. Pela capacidade de expor seu ponto de vista com inteligência.

Meu garoto não se conforma com pouco, tem senso estético apurado, gosta de cozinhar, nadar, lutar karatê, deslizar sobre as rodas do skate e de assistir filmes em que o herói jamais morre no final. Ele acredita que o bem deve vencer sempre - a despeito de saber que na vida real as coisas nem sempre acontecem dessa forma.

Ultimamente, tem deixado a bateria de lado. E isso é um sofrimento pra mim porque adoro quando ele toca e enche nossa casa de música. Tem uma preguiça ancestral quando o tema é estudar. Na sua opinião, melhor seria fazer qualquer outra coisa que exigisse movimento e criatividade. Demonstra interesse por história e ciências, mas nota 10 mesmo ele só concede às artes plásticas (muito diferente de mim, que sempre fui um fiasco nessa disciplina).

Geralmente não gosta dos livros que a escola determina que ele leia. Então, dia desses, resolvi agir de forma mais incisiva: dei a ele contos de Edgar Allan Poe, Nelson Rodrigues, Rubem Braga, Antônio de Alcântara Machado e Luís Fernando Verissimo. Ele leu e gostou da maioria dos textos; outros, no entanto, achou esquisitos, com final sem graça. Mas o melhor é que elegeu "A menina sem estrela", de Nelson Rodrigues, como seu preferido.

Eu não havia dito nada, mas naquela leva de textos, aquele também era o meu favorito... E essa escolha diz muito sobre ele. Sobre nós. Coisas como essa me fazem ter ainda mais fé no seu futuro. E, como diz a música: "Meu coração canta feliz".

quarta-feira, junho 16, 2010

Três letras trágicas


Edward Hooper, Summer Interior.


Acordei treva,
travada,
triangular.
Três letras trágicas
trespassam meu ar: TPM.

Goimar Dantas
São Paulo, 16/06/2010.

domingo, junho 13, 2010

A casa do poeta



Estou gostando da ideia de utilizar o blog para, sempre que possível, compartilhar os bastidores das pesquisas, entrevistas, leituras e demais atividades que compõem o processo de trabalho do meu novo livro Rotas Literárias de São Paulo que, conforme explicação do post anterior a este, abordará os espaços e personagens literários dessa que é maior metrópole do país e uma das maiores do mundo.

E na sexta-feira, 11, foi a vez de visitar a belíssima Casa das Rosas – Espaço Haroldo de Campos de Poesia e Literatura, que, gradativamente, vem se tornando um dos endereços mais dinâmicos da cultura paulistana. A visita, realizada sob a competente monitoria da coordenadora educacional Karen Kipnis, aconteceu pela manhã, quando fui apresentada a cada um dos 30 cômodos daquele que é o Casarão mais charmoso da Avenida Paulista.

A tarde seria dedicada a uma entrevista com o professor, crítico literário e poeta Frederico Barbosa. Fred, como é conhecido, é autor de diversos livros e foi duas vezes vencedor do Prêmio Jabuti, categoria Poesia. Não à toa, é o diretor da Casa das Rosas e também da Organização Social Poiesis, onde desenvolve um trabalho digno de classificá-lo como um dos gestores culturais mais competentes da cidade.

Graças a Fred e sua equipe, a Casa vem se tornando celeiro de novos poetas, espaço capaz de divulgar poesia e literatura a toda a comunidade, que tem acesso a cursos, oficinas, palestras e aos famosos saraus realizados no local.

Durante boa parte da tarde, Fred abriu seu coração sem reservas e, com voz pausada e tranquila, contou de seu amor pela cidade, pela poesia, pelos livros. Generoso, intercalou histórias com a declamação de poemas e, entre um e outro, apresentou seu olhar apurado sobre um sem-número de temas ligados ao universo dos livros. Não bastasse, trouxe à tona recordações afetivas de sua infância e juventude, pontuadas por sua relação com o pai, o renomado crítico literário João Alexandre Barbosa, falecido em 2006.

Só tenho a agradecer por ter sido tão bem recebida naquela que é uma Casa dedicada à poesia.

sexta-feira, junho 11, 2010

A dama e o cavalheiro



Na última quarta-feira, dia 9, estive na sede da Orquestra Sinfônica de São Paulo, a Osesp, que funciona em um dos locais mais belos da cidade, a Sala São Paulo, na Estação Júlio Prestes. Tenho paixão por esse lugar e sempre que vou até lá a visita acaba por ocupar um espaço de honra em meu coração e em minha memória.

E dessa vez não seria diferente porque o motivo de minha ida era realizar uma entrevista com Arthur Nestrovski, violonista e escritor que, até bem pouco tempo, também atuou como professor de literatura, na PUC-SP, e editor, na Publifolha. Mas, desde janeiro de 2010, Arthur assumiu o posto de diretor artístico da Osesp. Um cargo cuja relevância é indiscutível, dada a importância e o prestígio merecidos dessa orquestra fabulosa no Brasil e no mundo. Ainda assim, Arthur, gentleman que é, arranjou um tempinho pra me receber.

Arthur é uma das tantas personalidades que estão me concedendo (lindíssimos!) depoimentos para meu novo livro intitulado Rotas literárias de São Paulo, que pretende lançar luz sobre a cidade de São Paulo sob o ponto de vista da literatura, dos espaços literários e dos personagens que compõem o mundo das letras na capital paulista. E Arthur que, dentre outras coisas, nos presenteou com essa música belíssima aí do vídeo acima (onde surge ao violão), dedicada à Lygia Fagundes Telles, não poderia, claro, ficar de fora.

domingo, junho 06, 2010

Clássicos da literatura



Preciso compartilhar essa fotografia da minha querida máquina de escrever Royal, ao lado das nove reproduções fac-similares da Revista Klaxon, de 1922, publicadas, por sua vez, em 1972. Trata-se de primorosa e raríssima edição da Livraria Martins Fontes, em convênio com o Conselho Estadual de Cultura, da Secretaria de Estado da Cultura, Esportes e Turismo, do Governo do Estado de São Paulo. Era uma edição comemorativa naquele que foi o ano do cinquentenário da Semana de Arte Moderna.

A máquina é minha, mas a edição das revistas pertence ao meu amigo Leo, que essa semana prometeu que a deixará para mim, em testamento. Leo conta que a Livraria Martins Fontes disponibilizou para venda apenas 200 exemplares dessa edição contendo os nove números da Klaxon, que reúne boa parte do pensamento modernista brasileiro. Temendo ficar sem seu exemplar, no dia anunciado para o início da tal venda, Leo deu plantão na porta da antiga livraria, no Centro de São Paulo. Chegou às seis da manhã e já havia duas pessoas na fila...

Pois Leo me emprestou essa raridade há alguns dias mas, desde então, ainda não tive coragem de lê-la. Explico: algumas publicações têm, a meu ver, um caráter sagrado. Não raro, presto tanta reverencia a elas que chego a temer uma aproximação. Os dias passam e fico ali, olhando esses livros ou revistas, custando a acreditar que, mesmo provisoriamente, estão sob minha guarda, dentro da minha casa, compartilhando espaços na estante da sala ou em meu criado-mudo.

Ouvi falar da Klaxon pela primeira vez na adolescência, mais precisamente no segundo colegial, em uma das inesquecíveis aulas da querida professora Regina, que ministrava o curso de literatura. Durante dois anos Regina me apresentou um mundo inesquecível, composto por autores parnasianos, simbolistas, românticos, naturalistas, modernistas. Nunca poderei esquecer seu entusiasmo declamando poemas de Augusto dos Anjos, Manuel Bandeira, Drummond, Vinícius.

Já na hora de aprender inglês - e eram oito aulas por semana, uma vez que cursávamos o técnico em Tradutor e Intérprete -, o que tínhamos era uma professora completamente maluca que usava polainas coloridíssimas e sempre gastava de 10 a 15 preciosos minutos da aula oferecendo aos alunos a muamba que, mensalmente, trazia do Paraguai.

Mesmo assim, dona doida, como a apelidei anos depois, teve seu mérito: devo a ela a graça de ter ampliado meu vocabulário no idioma de Shakespeare, lutando para tentar traduzir, aos 16 anos, os principais contos de Edgar Alan Poe, que ela nos apresentava por meio de discos (sim, sou do tempo dos vinis) que traziam dramatizações dos tais contos. Ficávamos dias e dias decifrando o vocabulário desses textos que, à época, me pareciam grego.

Ainda hoje sou capaz de lembrar o impacto que senti ao ouvir clássicos como "O coração delator" (meu conto preferido de Poe) e "O barril de Amontillado" - tudo isso tendo, ao fundo, trilhas sonoras típicas de suspense, acrescidas da voz maravilhosa do fabuloso narrador (nunca descobri quem era). Deus do céu... Certas lembranças valem uma encarnação. E, nesse meu transe terrestre, essa é uma delas.

Enfim, vim aqui só pra mostrar a foto da Klaxon e da Royal e vejam só onde fui parar? Nas aulas de literatura e inglês de minha adolescência! Incrível como um blog pode, muitas vezes, funcionar como eficiente máquina do tempo.

quinta-feira, junho 03, 2010

Bêbado coração


The Reading Room, Carl Larsson, 1909.


Deitada no sofá, imersa na atmosfera de um livro, eu visitava a São Paulo do início do século XX. Mas ao perceber que alguém se aproximava, abandonei a plantação de chá que, naqueles idos de 1900, ocupava boa parte do Centro paulistano para ser imediatamente reconduzida à minha sala, no ano da graça de 2010.

Foi quando levantei a vista e o vi ali, estático, à minha frente. Surpreendida pela aparição, imaginei que ele, por certo, teria escapado do vão estreito de seus estudos e trabalhos.

Era o que demonstravam seus olhos cansados e castanhos cujas pupilas dilatadas traziam um nítido pedido de socorro. Ciente de que eu compreendera a situação, ele respirou fundo e se atirou sobre mim, repousando a cabeça em meu colo – reino onde permaneceu inerte, sem dizer palavra.

Com o impacto, transbordei ternura e passei as mãos sobre seus cabelos – antigo mar negro que, aqui e ali, iniciara um flerte com o troféu cor prata concedido aos lobos.

Mas apesar da intensidade da entrega, a rendição não ultrapassou dois minutos. Obedecendo ao chamado interno que lhe convocava às suas tantas responsabilidades, ergueu-se resoluto como um soldado entrincheirado e, num átimo, partiu rumo ao escritório, localizado no cômodo ao lado.

Por uma fração de segundos, pensei ter ficado sozinha na madrugada gelada, mas logo me dei conta: seu perfume, talvez condoído pelo corte abrupto da cena, decidiu permanecer comigo numa solidariedade típica de aroma.

E a essência invadiu meus poros com sua dança cítrica.

E caiu na correnteza das minhas veias.

E irrigou meu coração, que, durante o restante da noite, e também por horas e horas do seguinte dia, bateu bêbado, em disritmia.

Goimar Dantas
São Paulo,
03 de junho de 2010.


sábado, maio 29, 2010

Aula de Drummond




Ainda sobre o tema cartas, presente no post anterior a este, hoje o jornal Folha de S. Paulo traz excelente matéria sobre a veia missivista do poeta Carlos Drummond de Andrade, que trocava cartas não só com amigos famosos, mas também com seus leitores, muitos deles professores, jornalistas e outros personagens anônimos do cotidiano nacional.

As informações apuradas pelo jornal dão conta de "(...)1.812 correspondentes de Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) registrados no arquivo da Fundação Casa de Rui Barbosa, no Rio". O jornal vai além e lança, ao final da matéria, uma campanha para descobrir novas cartas de Drummond, possivelmente espalhadas por todo o País.

Dentre os trechos de cartas encontradas no arquivo da Fundação Casa de Rui Barbosa, e que o jornal destaca, meu preferido é o endereçado à professora Yola Azevedo, que não só acatou as sugestões presentes na carta que recebeu do poeta, como acabou ganhando o Prêmio Jabuti de escritora revelação, em 1984.

Aí vai:


INCENTIVADOR

Percebendo o bom texto da amiga, o poeta a estimulou a escrever.
Yola hesitou, mas acabou por mandar a ele os originais de um romance. Numa longa carta em 1982, após ler o primeiro capítulo, Drummond deu à amiga quase uma oficina literária por via postal.

São dicas como: "Dizer por exemplo que uma sucessão de mortes "é incrível", está bem quando é a pessoa imaginária quem fala, mas para o escritor nada é incrível, inenarrável, assombroso".

"Os adjetivos desse tipo são uma fuga à obrigação de definir o fato ou a sensação. Uma sucessão de mortes, brutal e imprevista que seja, pode ser contada também de maneira brusca e seca: "Perdeu o irmão num acidente, o pai de infarto, a mãe de trombose. Em três meses." (Ou cinco, ou seis). (...) Já o leitor, vendo isso, tem o direito de dizer: "É incrível!'".

Ou: "Acho bom, também, evitar expressões estereotipadas, como "divino milagre" (todo milagre é divino), "fazer das tripas coração" (...), que são lugares-comuns. Deixar de lado, igualmente, citações desnecessárias, como a do inferno de Dante, que se popularizou e é usada por todo mundo que nunca se aproximou da "Divina Comédia". Citação é ótima quando totalmente inesperada".

Yola acatou tudo. Lançou "A Reconquista" em 1984 e ganhou com ele o prêmio Jabuti de autor revelação.

A professora conserva em casa, organizadas em pastas, dezenas das cartas de Drummond, todas carregadas de afeto e gentileza. Mas nunca guardou o que escreveu para ele. A reportagem leu o trecho de uma carta dela a ele, pinçada no arquivo do Rio: "Mas nossos afetos deveriam ser eternos e, cada vez que me fala dessa dor no peito, a dor se desdobra aqui no meu peito, feito um arrancamento a frio".


Para se deliciar com a matéria toda, é só clicar aqui.

quinta-feira, maio 27, 2010

Cartas a uma jovem poeta



Entre os 13 e os 23 anos troquei muitas cartas de amor e amizade. Foi uma época mágica em que a preservação de minha memória pessoal se unia a tinta e aos papéis, viajando distâncias muitas vezes continentais para se fazer conhecida pelos receptores de minhas crônicas, poemas e declarações de amor. Mas eu também trocava cartas com quem estava perto, no mesmo bairro ou na cidade vizinha.

Isso porque tive a sorte de me relacionar com pessoas que, assim como eu, acreditavam piamente no poder das palavras - essa espécie de entidade capaz de trazer na essência raríssimos selos de sentimento. Selos espalhados por linhas e entrelinhas que exercem, em nossas vidas, papeis fundamentais.

Cartas mudavam destinos, fortaleciam laços, amenizavam saudades. Cartas traziam tristezas, alegrias, felicidade. Cartas retratavam um tempo, um pensamento, uma dor, uma esperança. Cartas mandavam e recebiam lembranças.

Por meio das cartas exercitei meu texto, meu poder de argumentação, de síntese, de persuação. Cartas são um tipo de lição e, por que não dizer, de oração. Quantas vezes, quando as recebia, eu optava por lê-las em voz alta. Uma tentativa ingênua de fazer com que, milagrosamente, o som das palavras tivesse força suficiente para, quem sabe, materializar à minha frente a figura tão desejada da pessoa amada.

Mas muito dessa magia se perdeu à proporção que a internet ganhou espaço. Não vou dizer que meu coração nunca bateu forte ao receber um e-mail. Já ri, chorei e me emocionei demais com eles porque, afinal, a palavra ainda está lá. Porém sinto uma saudade imensa de olhar - e até analisar - a letra de quem escreve (seria uma letra nervosa, tremida, apressada, apaixonada?), de sentir o cheiro do papel e, finalmente, do ritual de abrir o envelope com o coração. Sim porque, nessas horas, o coração batia mesmo era na ponta dos dedos.

É isso, caros amigos... Queria compartilhar o fato de ter acordado com saudade de ter o coração na ponta dos dedos. Seria maravilhoso se isso acontecesse, ao menos, uma vez mais.

Recebam meu beijo e meu carinho,

Goimar

Ps: na foto acima, algumas cartas e postais que recebi na adolescência e que guardo comigo até hoje.


domingo, maio 23, 2010

O despertar de Eva




Ao acordar,
mordi, faminta, a maçã do seu rosto.
E não satisfeita, comi seu pomo de Adão.


Goimar Dantas
São Paulo, 02-05-2010

sexta-feira, maio 21, 2010

Cárcere



O frio aprisiona meu corpo, minha alma.
Tento fugir dessa estação,
mas a trama e o peso de mil cobertores me impedem de pegar o trem.
No frio, deixo de ser mulher para me tornar objeto retesado.
Isso porque meu desejo, alado, voa para bem longe.
E meu temperamento sanguínio, moreno, "tropicano",
fruto da veia onde também corre a cana caiana,
esse hiberna na caverna,
em floresta longe do mar.
No frio, pouco sorrio
e o brilho de minha aura cai três tons...
No frio eu viro outono,
ocaso,
descaso.
É triste, mas é assim:
o frio (pra mim)
é o início do fim.

Goimar Dantas
São Paulo, 21/05/2010.

quarta-feira, maio 19, 2010

Balada para uma lembrança de infância



Dias desses, recebi um afago do passado.
E ao passar as mãos em meu rosto
aquele tempo teve o poder de me fazer rever
em meu coração uma antiga linha de expressão:
marca de um caminho,
antigo pergaminho
cujo texto um dia decifrei.
Delicada ruga adquirida da lembrança
de uma velha paixão de infância
que o peito cicatrizou.
E se o grande “poetinha” comigo estivesse
talvez olhasse aquela linha e dissesse:
“Foi eterna enquanto durou”.

Goimar Dantas
São Paulo
01/04/2010

sábado, maio 15, 2010

"Entre as coisas mais lindas"



É claro que a data não poderia passar em branco. Hoje minha filhota Tailane, a Tatá (que também é minha modelo predileta, diga-se de passagem), faz 12 anos.



E para essa menina levadíssima que apronta mil e umas, desejo tudo de melhor que a vida pode dar: meus parabéns, filha linda! E, pelo amor de Deus: juízo!

Abaixo, uma música que diz muito sobre meus sentimentos em relação à Tatá.