domingo, outubro 23, 2011

Papangu na Mostra Cultural de Japi




Todo dia é dia de folia para o papangu! Dessa vez o danado resolveu fazer Carnaval em pleno mês de outubro, mais precisamente no último dia 19, na I Mostra Cultural de Japi, no Rio Grande do Norte. Quem acompanha esse blog sabe que Japi é a cidade da minha família materna, onde vivi alguns anos - importantíssimos - de minha infância. Lá, ambientei boa parte da história do meu livro Quem tem medo do papangu?, inspirado nas aventuras e peripécias vividas por meu saudoso avô Pedro Horácio, que durante anos alegrou o Carnaval da cidade se transformando, nos dias da Festa de Momo, no papangu mais tradicional do município.

Por tudo isso, os educadores da cidade decidiriam inserir o livro e o tema do papangu nas festividades da Mostra Cultural, transformando o Quem tem medo de papangu? em peça de teatro. Foi uma enorme festança com direito a homenagens que incluíram minha avó Maria, alguns dos meus tios e primos presentes na ocasião.



O público da Mostra foi composto por centenas de crianças e adultos da comunidade. Ali, naquele colorido ambiente que mesclava festa e aprendizado, muitos tiveram acesso, pela primeira vez, a essa história que, desde a minha infância, me encantou sobremaneira - a ponto de me levar a escrever um livro sobre ela.

Fica aqui meu eterno agradecimento, afeto e respeito a todos os profissionais envolvidos na 4ª Mostra Cultural de Japi. É maravilhoso saber que contribuí, de alguma forma, com o trabalho de vocês junto aos aprendizes da cidade. Peço licença, no entanto, para dizer um obrigada especial à educadora (e minha xará de sobrenome) Célia Dantas, que trabalhou a temática do livro com seus alunos da Educação Infantil e do Ensino Fundamental, e que vem se empenhando muito para a divulgação dessa obra na cidade. Aliás, "pesquei" todas as imagens que ilustram este post do orkut dela, na maior cara-de-pau :)



A fofa da minha avó Maria sendo conduzida pela educadora que interpretou o "papangu".


Aqui vemos minha avó Maria, tios e primas se juntando ao "papangu" na hora da foto.



A professora Célia Cristina Dantas se dirigindo ao público.


Achei uma graça essa reprodução de uma foto minha ao lado de outra (que eu amo!!) dos meus avós Pedro e Maria. Aliás, lembro como se fosse hoje do dia em que tirei essa fotografia dos dois, no quintal da casa de ambos, ao lado da cisterna. Eu tinha 19 anos e, logo que voltei das férias, mandei fazer várias reproduções do retrato. Mandei um para cada tio. Hoje, passados tantos anos, essa recordação tem lugar de destaque na casa de todos eles.

Um viva para o papangu! E outro viva para as memórias que rendem boas histórias!

domingo, outubro 16, 2011

Baianidade nas bancas



Na edição deste mês, a revista Conhecimento Prático Literatura, da editora Escala Educacional, traz análise do meu poema Baianidade Grega, assinada pelo professor Leo Ricino. Em nove páginas, o professor não só analisa o poema como chama a atenção dos leitores para a ótima safra de autores contemporâneos. Dentre eles: Adriana Lisboa, Andrea del Fuego, Claudia Lage e Vário Do Andaraí (para ficar só nos nacionais). Fiquei feliz da vida por estar em tão boa companhia! :)

Infelizmente, o site da revista não disponibiliza a leitura de todos os textos durante o mês da edição. O jeito é correr às bancas de jornal e procurar um exemplar. E vale a pena! A revista está muito bonita e com temas ótimos que auxiliam, sobretudo, o trabalho dos professores de português e literatura em sala de aula.

Em tempo: o site da revista disponibiliza todos os textos do competente professor Leo Ricino, publicados nas edições passadas. É só escrever o nome dele na busca. Fica a dica!

domingo, outubro 09, 2011

Papangu com Cata-vento




Foi uma delícia a contação/leitura da história do Quem tem medo de papangu? para as crianças do Colégio Cata-vento, na Livraria Cortez, na última sexta-feira, dia 07. Pura diversão! Ganhei muitos beijinhos, abraços e carinhos sem ter fim. Olhem só que coisinhas mais lindas essas crianças. Todas especialistas em catar ventos de alegria e amor para, depois, soprar no rosto da gente.

Uma tarde linda, linda, linda!





Quase chorei quando vi essas duas fotos acima... Que mais posso querer da vida?


Júlia: sempre fazendo o melhor para que tudo fique ainda mais bonito! Aproveito para agradecer a todos os amigos da Livraria Cortez, pelo convite e pela confiança de sempre!



Esse é o Cauã. Arrasou durante a minha contação/leitura! Participou, deu pitaco, perguntou. Fofo demais!


Na hora dos autógrafos, pausa para uma recordação da turminha e das professoras.

quinta-feira, outubro 06, 2011

Papangu na Primavera

E nesta sexta-feira, dia 7, às 14h, o papangu vai fazer folia na Livraria Cortez, em Perdizes!! É que estarei lá fazendo a leitura do Quem tem medo de papangu? para a criançada da escola Cata-vento. Não faltarão alegria e diversão!! Juro por todos os carnavais e pelas máscaras mais bonitas que existem!! Palavra de neta e sobrinha de papangus!!

quinta-feira, setembro 22, 2011

Finalista do Prêmio Jabuti



A palavra "felicidade" é linda, mas não dá conta do que estou sentindo. A biografia Cortez - A saga de um sonhador, que escrevi em parceria com a socióloga Teresa Sales, está entre as finalistas do Prêmio Jabuti. A lista foi divulgada ontem, e quase tive um piripaque ao receber a notícia. Ficar entre os 10 indicados da categoria já é, para mim, uma vitória imensa.

Sabemos que o Jabuti é prêmio literário de maior repercussão no país. A concorrência é enorme e há muitos livros de qualidade na batalha. Nesse contexto, ter o trabalho reconhecido em meio a milhares de obras é realmente motivo de muita alegria. Quero aproveitar o momento tão especial para, uma vez mais, agradecer à Cortez Editora, pela confiança, e, principalmente, ao meu querido biografado José Xavier Cortez, por ter nos concedido a honra de poder contar sua história.

Encerro esse post relembrando nossa alegria no dia do lançamento ocorrido em São Paulo, em 03 de maio de 2010.

segunda-feira, setembro 19, 2011

A vida do livro

“Para todo escritor é sempre uma surpresa o fato de que um livro tenha vida própria, quando se desprende dele; é como se parte de um inseto de destacasse e tomasse um caminho próprio. Talvez ele se esqueça do livro quase totalmente, talvez se eleve acima das opiniões que nele registrou, talvez até não o compreenda mais, e tenha perdido as asas em que voava ao concebê-lo: enquanto isso o livro busca seus leitores, inflama vidas, alegra, assusta, engendra novas obras, torna-se alma de projetos e ações – em suma: vive como um ser dotado de espírito e de alma, e contudo não é humano”.


Essa lindíssima citação de Nietzsche foi extraída de um livro pelo qual estou completamente apaixonada: Nos bastidores do imaginário – Criação e Literatura Infantil e Juvenil, de Anna Claudia Ramos (Editora DCL 2006).

domingo, setembro 18, 2011

Poesia e prosa para os jovens




Mesmo com atraso de dias, venho postar o registro da cobertura da moçada da Agência Jovem de Notícias no II Seminário Literasampa. Para ler o texto sobre o nosso bate-papo com os mediadores de leitura, basta clicar aqui.

quinta-feira, setembro 15, 2011

De Japi a Assis: pátria papangu!



Olha que alegria!!! No desfile de 7 de Setembro, na cidade de Japi, sertão do RN, euzinha e o meu filhote Quem tem medo de papangu? recebemos uma homenagem linda da criançada e dos educadores!

Japi é cidade da minha família materna, onde meu avô Pedro Horácio passou anos se vestindo de papangu e alegrando os carnavais de centenas de crianças! Aliás, é justamente em Japi que se passa boa parte da história do livro Quem tem medo de papangu?. Não são lindos esses estudantes que aparecem na foto segurando os cartazes?!

Essa fotografia, que me foi enviada pelo meu querido padrinho Uilson Pinheiro, me emocionou muitíssimo. Até porque Japi é uma presença constante em minha memória afetiva. Suas casas, suas ruas, a presença de meus avós, tios e primos...

Fica aqui meu muito obrigada às professoras e às crianças de Japi por esse inesquecível afago em meu coração sertanejo!



E não bastasse a homenagem de Japi em pleno 7 de Setembro, o papangu ainda teve que sair dando pinote, numa carreira danada, cortando o vento por cerca de três mil quilômetros!!! Tudo para que dia 09 de setembro pudesse fazer folia no coração e nas mentes de centenas de crianças de três escolas do município de Assis, interior de São Paulo. São elas: EMEIF Profº João Luiz Galvão Ribeiro, onde acontecia a 3ª Festa Cultural; EMEIF Profº João Leão de Carvalho e EMEIF Profª Mafalda Salotti Bartholomei. Olha só que lindas as fotos dos eventos:









Nesta última foto, a gente vê a contadora de histórias Gabriella Lois (também conhecida como "Abgail conta mais de mil"), especialista em levar a magia do papangu pra criançada.

Agradeço demais às escolas de Assis e à Livraria Cortez, que possibilitou a ida da Gabriella Lois pra fazer a festa da criançada junto com o folião papangu!

domingo, setembro 11, 2011

Bate-papo com mediadores de leitura



Aqui estão algumas fotos do meu bate-papo com jovens mediadores de leitura que atuam em bibliotecas comunitárias, a maioria deles da região de Parelheiros, na zona sul da capital paulista. As imagens são do Eric Silva de Andrade, da Revista Viração Educomunicação, que fez a cobertura do evento.



As meninas fizeram relatos emocionantes sobre suas atuações nas bibliotecas, onde geralmente atendem ao público infantil.


Nesse bate-papo com os jovens, falei sobre os primeiros mediadores de leitura que tive na vida: meu professores. Também mostrei a eles uma de minhas relíquias: o primeiro livro que li na vida... Foi "O caso da borboleta Atíria", de Lúcia Machado de Almeida (Coleção Vaga-lume), Editora Ática. Reparem no durex na lombada...



A conversa foi regada a muita poesia e prosa, além de rica troca de experiências! Obrigada ao Instituto Brasileiro de Estudos e Apoio Comunitário (IBEAC), na figura de Cida Jurado (que aparece na primeira foto deste post, à direita), e à Editora e Livraria Cortez, pelo convite e, principalmente, pela confiança!

quinta-feira, setembro 08, 2011

Papangu em Assis!



Amanhã, dia 09, será dia de fortes emoções para as crianças de Assis, interior de São Paulo!! A Livraria Cortez levará a contadora de histórias Gabriella Lois rumo à cidade para contar a história do "Quem tem medo de papangu?" na 3ª Festa Cultural da EMEIF Profº João Luiz Galvão Ribeiro.

Os professores da escola adoraram o "Quem tem medo de papangu?" e estão realizando um trabalho todo especial com os alunos, com foco em cultura popular. Por coincidência, amanhã estarei no evento LiteraSampa, na Biblioteca Monteiro Lobato (ver post anterior), mas estou certa de que será um dia inesquecível para todos os alunos e educadores que conhecerão mais sobre o Papangu lá em Assis! Verdade seja dita: meu coração estará lá e cá!

Viva o Papangu!!!

E pra matar saudade, na foto abaixo, vemos a Gabriella Lois, arrasando no lançamento do Quem tem medo de papangu?, em fevereiro deste ano!

segunda-feira, setembro 05, 2011

II Seminário de Leitura LiteraSampa




Na próxima sexta-feira, dia 09, às 14h, participo do II Seminário de Leitura LiteraSampa, que acontece na Biblioteca Infantil Monteiro Lobato, à rua General Jardim, 485, Vila Buarque. O tema deste ano é Bibliodiversidade. O evento contará com a presença de escritores, poetas, ilustradores, educadores, antropólogos, biblioteconomistas e representantes de diversas entidades ligadas ao livro e à leitura.

Estou feliz da vida com o convite, principalmente porque caberá a mim bater-papo com 35 adolescentes e jovens mediadores de leitura que atuam em bibliotecas comunitárias da região de Parelheiros, na Zona Sul da capital paulista. Uma moçada esforçada, capaz de superar uma série de adversidades em prol da leitura e do livro.

O evento, realizado pelo Instituto Brasileiro de Estudos e Apoio Comunitário (IBEAC), tem apoio institucional do Senac São Paulo, do Instituto C&A e várias outras instituições. É importante destacar que algumas atividades acontecerão, também, no Auditório Nobre do Senac Consolação (Rua Doutor Vila Nova, 228). Ainda restam algumas vagas para assistir aos debates, exposições e apresentações. Basta preencher uma ficha de inscrição e levar um livro de literatura com edição a partir de 2007 para compor o acervo das bibliotecas comunitárias. Você pode obter mais informações pelo telefone: 3864-3133, de segunda a sexta, das 10h às 15h. Falar com Lígia.

Imperdível!!

sábado, setembro 03, 2011

Duas vidas

"Temos todos duas vidas:
A verdadeira, que é a que sonhamos na infância,
E que continuamos sonhando, adultos num substrato de névoa;
A falsa, que é a que vivemos em convivência com outros,
Que é a prática, a útil,
Aquela em que acabam por nos meter num caixão.
Na outra não há caixões, nem mortes,
Há só ilustrações de infância:
Grandes livros coloridos, para ver mas não ler;
Grandes páginas de cores para recordar mais tarde".

Encontrei esse trecho fantástico do poema "Dactilografia", de Álvaro de Campos, heterônimo de Fernando Pessoa, lendo o não menos fantástico O que é literatura infantil, de Ligia Cademartori (Editora Brasiliense, 2010, coleção Primeiros Passos). Impossível não vir aqui compartilhar com vocês.

quinta-feira, agosto 25, 2011

A festa

(Para Jorge Luis Borges, que faria 112 anos ontem).

E na festa de ontem: o tempo flertou com a toada. O mistério se envolveu com o nada. O amor se enroscou com o caminho. A valsa se engraçou com o vinho. E a noite, sempre oferecida, se deitou com todos os convivas. Linda, negra e muito bem vestida: luas e estrelas em tramas tecidas. Lá pelas tantas, veio a madrugada. E foi então que não faltou mais nada. Mas a quem interessar ainda possa: a brisa estava o fino da bossa! Por fim chegou o raio de sol. Sozinho... Só pra dourar a memória dessa história.

segunda-feira, agosto 15, 2011

Feliz Felit


Com atraso de quase uma semana, posto algumas fotos da minha participação na 1ª Feira Literária de São Bernardo do Campo (Felit), dia 09 de agosto. As imagens são de minutos antes de eu começar a segunda leitura do Quem tem medo de papangu?. Foram três eventos reunindo, no total, cerca de 600 crianças. A meninada mandou muito bem e me fez um zilhão de perguntas sobre o livro, o papangu, minha relação com a leitura/escrita! Um dia inesquecível!!










Com o queridíssimo editor José Xavier Cortez e Maria Helena Negreiros, da Secretaria de Educação de São Bernardo do Campo.

sexta-feira, agosto 12, 2011

Sobre o livro




“Dos diversos instrumentos do homem, o mais assombroso, sem dúvida, é o livro. Os demais são extensões de seu corpo. O microscópio, o telescópio, são extensões de sua vista; o telefone é extensão da voz; depois temos o arado e a espada, extensão de seu braço. Mas o livro é outra coisa: o livro é extensão da memória e da imaginação”.

(Jorge Luis Borges)

quarta-feira, agosto 03, 2011

A chama de Chamie



Era um final de tarde de clima agradável na capital paulista e às 17 horas daquela sexta-feira, 27 de agosto de 2010, o porteiro anunciou minha chegada. Subi. Ao sair do elevador, vi que meu entrevistado já me aguardava à porta. Usava boina preta, camisa branca de manga comprida, calça e sapato sociais. No rosto, um sorriso largo me dava boas-vindas. A sala onde conversaríamos era um conjunto harmonioso composto por piso de madeira, estantes forradas de livros e paredes enfeitadas com quadros e pôsteres. Eu ainda não sabia, mas estava prestes a entender que, para além de um típico apartamento do Jardim Paulista, em São Paulo, aquele espaço era, na verdade, uma sofisticada máquina do tempo, elegantemente conduzida pelo poeta Mário Chamie.

Generoso, o autor de Lavra Lavra (1962), obra vencedora do Prêmio Jabuti, me concederia muito mais do que um simples depoimento para o livro no qual estou trabalhando, intitulado Rotas literárias de São Paulo – a ser publicado pela Editora Senac São Paulo. Dono de memória prodigiosa, Chamie me apresentou durante quase quatro horas as edições raras, fotografias, personagens, endereços e histórias que ajudaram a compor os points literários da maior metrópole brasileira nos anos 40, 50 e 60 do século XX. Professor experiente – tendo atuado durante décadas na Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM) –, o poeta conseguiu me transportar para ruas, bares, restaurantes, leiterias, livrarias e bibliotecas tradicionais do Centro de uma cidade tão linda quanto lírica.


Trilogia de Jamil Almansur Haddad sobre Castro Alves. Uma das raridades da biblioteca de Chamie.


Chamie também narrou seu espanto quando, aos 14 anos, recém-chegado de Cajobi, deparou com a grandiosidade da Biblioteca Mário de Andrade. Aos poucos, o susto inicial deu lugar à curiosidade e ao encantamento. Office-boy da empresa Cosmos Capitalização e estudante do colegial clássico na Escola Estadual Presidente Roosevelt, onde Décio de Almeida Prado era um dos professores, Chamie dedicava o tempo que restava à Biblioteca. Ali assistiria a palestras essenciais à sua formação, proferidas por autores como Albert Camus e Aldous Huxley.

Com o passar dos anos, vivendo e aprendendo em meio à Paulicéia Desvairada de Mário de Andrade, Chamie – que dizia que “Há Mários que vêm para bem, e dos Mários o menor que sou eu” – cresceu, escreveu e apareceu: de estudante e poeta iniciante passou a professor, crítico literário e autor consagrado de dezenas de livros. É o caso de Paulicéia Dilacerada (FUNPEC-Editora, 2009), que tem em Mário de Andrade o personagem principal. A obra conquistou, em 2010, o terceiro lugar no Prêmio Jabuti, categoria Contos e Crônicas. Chamie foi também secretário municipal de Cultura (1979-1983), quando exerceu papel fundamental na criação do Centro Cultural São Paulo, obra da qual se orgulhava muito.


Vários pôsteres dos filmes da cineasta Lina Chamie, filha do poeta, emolduravam o escritório.


Ainda jovem, nas andanças por ruas como a 7 de Abril, a Barão de Itapetininga e a 24 de Maio, se tornou amigo de escritores renomados, como Oswald de Andrade. “Era fácil se enturmar (...). A gente encontrava as pessoas, entregava originais de livros (...). Era uma coisa elegante. As pessoas liam esses livros e nos escreviam cartas dizendo o que achavam”, revelou o poeta.

Chamie também contou ótimas histórias que nada tinham a ver com o roteiro de minhas perguntas. Porém, quando o “causo” é tão bom que justifica o desvio de rota, quem se importa? E um dos “causos” dizia respeito a seu encontro com o poeta João Cabral de Melo Neto, que, à época, ocupava o posto de embaixador em Dacar, no Senegal. Chamie havia sido convidado para ministrar palestra na Sorbonne, em Paris, e, naquele tempo, para se chegar à capital francesa, os aviões que partiam do Brasil precisavam fazer escala em Dacar. Nessa ocasião, João hospedou Chamie em sua casa e, à noite, ambos conversaram horas a fio, à beira da piscina. “João tomava uísque e discorreu sobre os mal-entendidos, as interpretações equivocadas de sua poesia. Pedi permissão para gravar a conversa, que rendeu cinco fitas cassetes. O Estadão se interessou e publicou duas páginas”, relembrou.


Chamie na sala de seu apartamento, no momento em que autografava dois de seus livros pra mim.

No último dia 03 de julho, quase um ano depois de ter ouvido Chamie mesclar passado e presente, poesia e prosa, a imprensa noticiou que o poeta nos deixou. Será? Pois prefiro acreditar que partiu para flanar pelas rotas que bem desejar visitar, sempre iluminado pela chama entusiástica que emanava dele enquanto rememorava tudo o que mais amava.

terça-feira, agosto 02, 2011

O papangu vai à Feira!



No próximo dia 09/08, às 09h50, tem autógrafos e leitura do Quem tem medo de papangu? no Espaço FNLIJ de Leitura, na 1ª Feira Literária de São Bernardo do Campo, idealizada pela Secretaria de Educação em parceria com a Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil – FNLIJ.

E no mesmo dia 09/08, das 14h às 15h20, estarei na Biblioteca FNLIJ para Jovens comandando um bate-papo com a criançada de 06 a 12 anos. Vamos falar sobre a trajetória do livro (desde a ideia do autor até a livraria), inspiração e processo criativo. Também contarei como surgiu o Quem tem medo de papangu?, intercalando tudo com leitura de alguns trechos do livro.

A Feira começou ontem e segue até dia 14 de agosto lá no Pavilhão Vera Cruz. Um evento gigantesco reunindo autores de literatura infantojuvenil de todo o país. Eu e o Papangu estamos felizes da vida por participar dessa verdadeira festa das letras! Para saber mais sobre o evento, é só clicar aqui.

quarta-feira, julho 27, 2011

O vício, o ofício e o voo

Tecer um texto é bordar avesso e direito, alargar conceito estreito, dar um nó em cada ponto, acentuar o encanto das figuras de linguagem, alinhavar os sentidos, cortar o excesso e juntar os retalhos que poderão ser usados em novo tapete mágico. Por que escrever é voar.

terça-feira, julho 19, 2011

Exposição na Livraria Cortez




Convido a todos para conferir a exposição de originais dos ilustradores do Estúdio A Caixa Mágica, os queridos Marco Godoy e Claudia Cascarelli. São 12 trabalhos extraídos dos livros recentemente ilustrados pelos artistas, todos publicados pela Cortez Editora. O evento acontece na Livraria Cortez, Rua Bartira, 317, no bairro de Perdizes, em São Paulo (ao lado da PUC). A exposição teve início ontem e segue até o dia 08 de agosto.

Só lembrando que a Claudia Cascarelli é a ilustradora do meu livro mais recente, o Quem tem medo de papangu?, que terá alguns de seus desenhos originais expostos no local (para minha imensa alegria!!). Sou fã de carteirinha do trabalho do Marco e da Cláudia, que têm o dom de transformar palavras em imagens encantadoras, sensíveis e cheias de poesia!

É uma exposição imperdível não apenas para as crianças, mas também para os adultos que apreciam essa arte imprescindível para o universo mágico dos livros infantojuvenis. Aqueça seu inverno com arte! Vá lá!

sábado, julho 09, 2011

Rio desvario




Quinta-feira estive no Rio. Um nublado desvario. Na Cinelândia onde toda a história foi escrita sem demora: na pena da boemia. À luz da noite e do dia. E logo mais e além, li a placa que dizia: “Cosme Velho”. Quem diria... E o que me deu? Ta-qui-car-di-a. Vontade de pedir ao taxista que me levasse àquela pista, que ao fim é o túnel do tempo. Deixei passar. Lamento... Essa minha covardia! Medo de perder a hora. O voo. O vão. Mas eu prometo voltar. E visitar o Shangri-la onde o Bruxo escolheu morar. E de lá explicou o universo. Mesmo gago e epiléptico. O saber não é estético (por vezes).

E ainda dentro do táxi, ouvi o motorista dizer “batuta”. Espanto. Escuta: acho que nunca tinha encontrado, cara a cara, essa típica pérola do dialeto carioca. Já ele se assombrou ao me ouvir dizer “toalete”. Olha só: empatamos. No uso de termos estranhos. E das entranhas do carro amarelo vi algo maior que um castelo: um Cristo de redenção. Batuque de coração. Pão-de-açúcar de ternura: doçura. Lagoa linda à esquerda: estreita! Porque muito menor que a emoção daquele momento. Profundeza de sentimento. Cidade símbolo e sonho. Maravilhosa verdade: beldade.

O Rio é como a palavra saudade. Só existe aqui. O Rio é a mulher brasileira: cheia de curvas e sempre de braços abertos. Paraíso ali de fronte, no monte. Desejo dos Dois Irmãos. Sempre tesos. Boquiabertos. O feminino das águas de sua baía, tão cantada em melodia. A devoção à Santa Teresa, onde ainda hei de estar: alto lá! Feliz. Subindo o morro de bonde. Turista sem diretriz. No Rio eu sou aprendiz. E quero um abraço bem largo: no Largo da Carioca, dos Guimarães, das Neves.

Quero conhecer a Lapa, os arcos, os botecos. O malandro que se acha esperto. O beco do Bandeira. Encanto. Ladeira. O Rio é o lírico infinito. O ritmo. O rito. Não vejo a hora de voltar. Pra lá. Deixa estar. Deixa ver. Quero observar a orla, o aterro, a Glória. Os garotos de Ipanema. E o galã da novela das oito: deitado, absorto, nas areias do Leblon. Porque sonhar é bom. Quero andar no calçadão. E me embriagar de ar. De cheiro de maresia. Poesia. E aí sim entrar no mar. Deslizando, devagar. E até lá, aquele abraço: embrulhado em lindo laço.

terça-feira, junho 28, 2011

Confissões poéticas

"Saibam todos que fora da poesia me sinto sempre um intruso. Torno a repetir o verso de Banville: Je suis un poète lyrique! Sim, sou sofrivelmente um poeta lírico: porque não pude ser outra coisa, perdoai... ".

Quem disse isso foi Manuel Bandeira, no livro Itinerário de Pasárgada, mas bem poderia ter sido eu. Em qualquer dia, em qualquer hora, em qualquer lugar... Sei que é uma audácia sem tamanho se equiparar ao dedo mindinho de Bandeira (perdoai!!!!). Mas quando li isso não consegui deixar de pensar o quanto essa confissão se encaixa em meus achismos íntimos como uma luva.

segunda-feira, junho 27, 2011

Sherazade no Sport’s Garden



Quando eu tinha vinte e dois anos, uma garotinha me perguntou:
“- O que você faz no seu trabalho?”
Ao que respondi:
“- Sou jornalista.”
E ao ver a cara de ponto de interrogação da menina, tratei de completar:
“- É mais ou menos assim: visito lugares, converso com pessoas, pergunto um monte de coisas para elas e, depois, escrevo essas histórias, que são publicadas no jornal”.
E a menina, sábia, lançou à queima-roupa uma definição muito mais eficaz para minha profissão:
“- Ah, tá... Então você é contadora de histórias!”
...
Pois é. Acho que sempre fui contadora de histórias. A diferença é que agora posso usar muito mais do que a palavra escrita para narrá-las ao público. Além da pena, do papel e do laptop, utilizo brinquedos, músicas e objetos variados que se transformam em qualquer coisa ditada pela imaginação. É maravilhoso exercitar a palavra acrescentando recursos múltiplos como gestos, risos, trejeitos e cantigas de infância – provocando uma interação riquíssima com os públicos infantil e adulto.




Estou convicta de que o contato com essa nova aventura já está me ajudando muito na criação de novas histórias para meus próximos livros infantis. E nesta quinta-feira, dia 30, concluo meu primeiro curso oficial de Contação de Histórias, ministrado pela professora Patrícia Ribeiro, no Senac Aclimação(com direito à diploma e tudo mais!:) Já as fotos deste post são de ontem, quando tive a oportunidade de exercitar essa arte milenar para o pessoal do condomínio onde moro. Foi mágico, para dizer o mínimo. Dias antes, contei uma das histórias para meus filhos e também para um amigo deles, o Mateus, que estava aqui em casa. Quando acabei a contação, recebi do Mateus um dos maiores elogios que alguém pode ganhar de um pré-adolescente. Ele disse, com todas as vogais e muito mais: "Nooooooossa, meu... Muuuuuuuuuito "da hora"'. Pra todo resto, tem Mastercard.



terça-feira, junho 21, 2011

Menina nonagenária



Dona Lourdes, vó do maridão, é uma menina de 90 anos: levada, ágil, marota e maliciosa. Vez ou outra, puxa a gente pela manga para nos contar, em sussurro, bem ao pé do ouvido, um disse-me-disse qualquer. Sá Lourdes, como é conhecida, gosta de dormir até meio-dia, como um bom adolescente. Sempre que assiste novela, discute ardorosamente com os personagens, como se esses pudessem, de fato, escutar suas reclamações. Não raro, discorda do roteiro, do texto, dos temas e dramas criados pelos autores. Nessas horas, põe o dedo em riste e, em meio ao chiste e ao caipirês fluente, passa um sabão na mocinha da trama, soltando pérolas assim:

“- Ôooo, ma qui muié burra!!!! Não vê qu’ele tá traindo ocê?! Ma é tonta demais da conta!”. E meneia a cabeça, consternada com a atitude xexelenta da protagonista do folhetim.

Aos 89, voltou a fumar porque... Bem... Com essa idade, não vê mais necessidade de se privar dos vícios. Sá Lourdes teve uma penca de filhos, netos e bisnetos. O marido era por demais chegado na “marvada” e, por conta disso, coube a ela sustentar a filharada no cabo da enxada, na lida diária dos cafezais do Sul de Minas Gerais.

No último domingo, na pequena cidade de Artur Nogueira, interior de São Paulo, onde hoje mora com a família, Sá Lourdes estava altiva e radiante ao som de duplas caipiras e conjuntos musicais que têm no forró seu estilo predominante. A festança comemorava os 90 anos da matriarca. E na hora do arrasta-pé, como era de se esperar, Sá Lourdes deu um baile em muita gente. Na entrada da festa, recebia os amigos e parentes com um abraço apertado, sorriso largo e curiosidade indisfarçável pra saber qual era o presente trazido pelo convidado.

Ah, Sá Lourdes... Se todos os personagens fossem iguais a você, que maravilha viver!



Ps: antes tarde do que nunca, estou atualizando o post com essa nova foto da hora do bolo, reunindo Sá Lourdes, alguns de seus netos e uma bisneta (clique pra ver ampliada). Tudo pra Sá Lourdes ficar mais feliz. Explico: é que ela detestou a foto em preto e branco. E não custa eu tentar me redimir, não é?

sexta-feira, junho 17, 2011

O pedido





Dei à luz a um menino que é ponte, estrada, caminho. Dádiva do destino. Benção da cor morena. Minha letra, meu fonema. Misto de céu e chão. Estratagema, poema. Diálogo e discussão. Tema do meu sermão. Minha fé, minha oração. Sete notas musicais. Meus suspiros e meus ais. Sino tocando no ventre. Balada no peito: concerto. Meu avesso e meu direito. Meu bilhete para a lua. Meu herói e meu vilão. Minha praia e meu sertão. Meu rito, feitiço, vício, conexão e extensão. Meu São Jorge e meu dragão. Estética e poética. Retórica e silogismo. Som e fúria. Repertório de ternura. A razão e o coração. A alma e a intuição. Partitura, receita, equação, solução. Ritmista e equilibrista. Skatista em minha pista. Billy Eliot: dançarino. Porto, navio, desvario. Esfera, quadrado, compasso. Meu traço, meu nó, meu laço. A veia e o verso. O texto e o contexto. O sonho e a vertigem. Enigma e signo. Lenda, verdade, ansiedade. Grito de liberdade. O tempo e o vento.
E tudo isso dito, eu poderia apenas agradecer... Mas ainda tenho um pedido a fazer:

“ -Salta uma juventude no capricho que o meu menino hoje faz 15 anos. Saúde, meu filho. Saúde!”.

terça-feira, junho 14, 2011

Non ducor duco *

Não dirigir automóveis tem suas vantagens. A principal é a liberdade de poder olhar paisagens e pessoas com atenção redobrada. Ser passageira permite observar e absorver as dores e delícias do caminho em toda a sua plenitude de sinais, cores, aromas e sensações. Também possibilita reconhecer personagens em meio às calçadas, faixas de pedestres, interiores de ônibus e carros que trafegam ao lado.

E se estou no trem ou no metrô, tanto melhor. Com olhar invasivo, percorro o corpo, as vestes, os trejeitos, os defeitos, a luz e a lama dos companheiros de vagão e dos transeuntes da estação. Para eles crio histórias, trajetos líricos, memórias, dramas, romances, poesias. Deixo que transcendam, surpreendam, multipliquem. Quando dou por mim, quem os está conduzindo sou eu.

Inventar histórias é um jeito todo próprio de brincar de Deus.

*A frase em latim Non Ducor Duco aparece escrita no brasão da cidade de São Paulo e significa “Não sou conduzido, conduzo”.

sábado, junho 11, 2011

Aula

“(...) em literatura a poesia está nas palavras, se faz com palavras e não com idéias e sentimentos, muito embora, bem entendido, seja pela força do sentimento ou pela tensão do espírito que acodem ao poeta as combinações de palavras onde há carga de poesia”.

Manuel Bandeira, em Itinerário de Pasárgada, Editora do Autor, 1966, Rio de Janeiro. Exemplar nº 0749.

quinta-feira, junho 09, 2011

Navalha na carne

Hoje um vento estilo navalha vasculhou meu rosto atrás de não sei o quê. E o fez com uma agressividade tão avassaladora que me transfigurou logo à saída do metrô. Não tenho noção do que fiz para ele me retalhar/retaliar desse jeito. Mas deve ter sido grave. Muito grave.

quarta-feira, junho 08, 2011

Ligações perigosas

Fui atropelada por uma história. Não quebrei nada, mas fiquei com os movimentos bastante comprometidos. Tornei-me desprovida de flexibilidade para realizar qualquer outra coisa que não seja transformá-la em palavras. Não sinto dores atrozes, mas existe, sim, muito desconforto. É como se estivesse traindo a história anterior, a mesma com a qual já estou oficialmente casada há quase três anos. Fico aqui tentando dar conta das duas, cruzando agendas, inventando desculpas para a história oficial – que vive cobrando minha presença, dedicação, afeto, comprometimento, entrega. Mas a nova narrativa é tão sedutora... Tão cheia de vida, de charme, de possibilidades. Impossível resistir.

Na verdade, estou convencida de que amo as duas. No caso da titular (aquela cujo contrato de publicação já está assinado), lembro com amor imenso de cada detalhe de nossa relação: a redação do projeto, a procura por editora, o longo período de pesquisas – que parece nunca se esgotar –, os fichamentos, as dezenas de entrevistas feitas, as horas intermináveis de transcrição, as fotografias, os lugares visitados e, finalmente, a redação dos primeiros textos. Penso nela em demasia, quero voltar aos seus braços o quanto antes, mas o poder de atração da nova história é tão impressionante que simplesmente não consigo deixá-la, mesmo sabendo que é pura incerteza, tiro no escuro, frio na barriga... Investimento numa relação sobre a qual ainda não existe nenhuma garantia de futuro.

O fato é que não me resta alternativa a não ser vivenciar esse amor simultâneo por duas histórias completamente díspares com aquela frase clássica do personagem cafajeste interpretado por John Malkovich no filme Ligações Perigosas: “It’s beyond to my control”.

Mas já que pareço perdida, aproveito a encruzilhada para refletir: além do estresse diário, qual a pena para um escritor/escritora que se relaciona de maneira descarada com duas (ou mais!!) histórias ao mesmo tempo? Seria a loucura? O medo constante de não concluir nem uma história nem outra? O pavor de criar dois textos capengas? E já que toquei no assunto... Não seria a própria “pena” o destino de todo escritor?

Pois é. Que atire a primeira pena quem nunca cobiçou a história sedutora que passa ao lado, jogando charme.

domingo, junho 05, 2011

Um desejo


Moça com livro, de José Ferraz de Almeida Júnior (sem data).

Não tenho a menor de ideia de como ou quando irei fazê-lo, mas o desejo de me inscrever num curso de História da Arte cresce a cada dia. Ontem ele se tornou ainda mais agudo, uma vez que fomos à Pinacoteca conferir a exposição comentadíssima (que infelizmente termina hoje) da artista portuguesa Paula Rego. Uma experiência impressionante, forte, inesquecível.

E como sempre acontece quando vamos às exposições realizadas ali, na saída demos uma passadinha na irresistível lojinha do Museu. Além de comprar o catálogo das obras em exposição permanente (pelo qual paguei a bagatela de dois reais), também adquiri um exemplar do livro Almeida Júnior - Um criador de imaginários, contendo cronologia e detalhes da vida e obra do renomado pintor brasileiro. Comecei a ler nesta madrugada e já me dei conta de que foram os 15 reais mais bem investidos dos últimos tempos.

Diferentemente de Paula Rego, cujo estilo é de viés contemporâneo, sempre abordando temáticas absolutamente perturbadoras, Almeida Júnior, nascido no século XIX, segue a linha clássica, com destaque para sua indescritível habilidade para utilizar o jogo de contrastes entre luz e sombra. Gosto de tudo, mas não escondo meu carinho especial pelas telas que se debruçam sobre o tema da leitura, como a que escolhi para ilustrar este post, e também pela lindíssima Saudade. Para saber mais sobre o pintor e seus quadros, basta clicar aqui.

sexta-feira, junho 03, 2011

Perdas

Na última quarta-feira perdemos Khadija, a cachorrinha do meu filho. A esperta vira-latas vivia no Sul de Minas, na casa da minha sogra. Lá, além de amor, desfrutava de mais espaço e liberdade – como tem de ser. Aos nove anos, era considerada uma idosa para o universo canino. Mas saber disso não traz nenhum alento. Queríamos mais é que fosse eterna, desejo que se repete com tudo e todos a quem amamos.

No mesmo dia perdi, ainda, o primeiro ídolo musical da minha infância. O cantor espanhol Manolo Otero, por quem me apaixonei perdidamente durante fase madura e altiva que coincidiu com a terceira-série primária. Lembro de que infernizei meu pobre pai durante semanas, até que ele se rendeu e me presenteou com o disco do charmosíssimo galã romântico. Nunca entendi como aquele vinil não furou na faixa que continha a canção Vuelvo a ti, que eu ouvia umas duzentas vezes por dia.

É fato: criaturas queridas morrem ou simplesmente vão embora; casas se deterioram ou são demolidas; árvores nas quais subíamos na infância são arrancadas devido à expansão imobiliária e escolas guardam de nossa passagem apenas a cópia amarelada de um histórico cujas notas jamais poderão traduzir as descobertas, alegrias, decepções e sonhos vividos ali.

Ao fim de tudo, o que resta? O que fica? O que não se perde? Sentimento. Memória. História. Por isso escrevo, registro, conto. E ressalto: o ponto final não passa de um bobo sinal gramatical.

quinta-feira, junho 02, 2011

Loucomotivo

Escrever,
cortar,
escrever,
cortar,
escrever,
cortar,
escrever,
cortar.
...
Esse é o único apito
que meu trem sabe tocar.

segunda-feira, maio 30, 2011

Segredos de liquidificador

Se ousarmos arriscar uma rápida definição, podemos descrever os sonhos como uma miscelânea constituída de matéria de memória, cacos do cotidiano, projeções do futuro, impulsos, intuições, desejos explícitos e também reprimidos. E uma vez entregues aos braços de Morfeu, esse mix de ingredientes oníricos é devidamente batido no liquidificador do subconsciente. Como resultado, iniciamos um incrível passeio pelo mundo maravilhoso de nossas próprias Mil e uma noites, repletas de paisagens e cenas tão misteriosas quanto reveladoras.

Dia dessas, por exemplo, sonhei que o escritor Marcelino Freire me presenteava com o nome de um personagem. Acordei em meio à madrugada tomada pela lembrança poderosa daquele substantivo próprio tão sonoro quanto esdrúxulo. Imediatamente, anotei o tal nome que, um dia, usarei em um conto ou romance. Acredito piamente que quando sonhamos com alguém estamos, de alguma forma, estabelecendo contato com essa pessoa –muito embora ela, conscientemente, não se dê conta disso. E por pensar assim, faço questão de cruzar a fronteira do sonho na direção da realidade para dizer: obrigada, Marcelino. De todo o meu coração, obrigada.

sexta-feira, maio 27, 2011

O dia em que descobri meu vício

Soube que era viciada em café há três anos, quando passei por um tratamento odontológico que proibia a ingestão dessa bebida por uma semana. Minha dentista perguntou: “Tudo bem pra você ficar sem café?”. E eu, convicta: “Claro, sem problemas. Só tomo mesmo um golinho de manhã e outro à tarde”. No dia seguinte, às 10 horas, eu já estava subindo pelas paredes, nervosíssima. Foi um choque sem precedentes: eu tinha um vício e não sabia.

Imediatamente lembrei de um chefe que tive na época da faculdade de jornalismo. Ele era alcoólatra e, volta e meia, era acometido por delirium tremens. Lembro de suas mãos chacoalhando na tentativa vã de equilibrar míseras folhas, óculos, canetas. Não demorava muito e ele entrava em sua sala para recompor-se com uma dose de uísque. Então, suas mãos paravam de tremer e tudo voltava ao normal. Eu tinha pena dele. Mais do que isso: o considerava um fraco, um derrotado.

Mas a casa caiu no dia em que fiquei sem meu cafezinho. Passei uma semana de cão até poder voltar a ingerir o líquido negro e fumegante que me acorda e aquece, deslizando quente por minha garganta sempre tão sensível e carente de calor. Desde então, penso um milhão de vezes antes de ter pena de quem quer seja. E quanto a me sentir superior em relação aos alcoólatras, fumantes e que tais, só me resta confessar: Perdi, playboy... Perdi.

Papangu em destaque



Neste mês, o Quem tem medo de papangu? foi um dos destaques do site Educar para crescer, da Editora Abril, que fez uma seleção contendo 10 livros infantis que abordam histórias indígenas e folclore. Para ler, clique aqui.

quarta-feira, maio 25, 2011

Por uma leitura do olhar

Um olhar pode ser um gênero literário. Esferas dilatadas evidenciando romance, drama, suspense, ensaio, poesia, crítica, ficção. E como num processo editorial, exigir etapas de preparação e revisão. Um olhar pode ser também tradução. De desejo, vontade, lampejo. Um olhar pode simbolizar um beijo. Pode nos sugar para dentro de sua trama. Um olhar pode ser sacana. Intenso e invasivo a ponto de constranger, de intimidar. Um olhar pode delatar, matar, destruir. Fazer o coração partir. Mas um olhar pode, ainda, seduzir, redimir, salvar, entusiasmar, acariciar. Se coubesse a mim redigir a Constituição, o artigo primeiro seria: É direito de todo o cidadão aprender a ler o olhar.

terça-feira, maio 24, 2011

Quebra-cabeça

“A capital do Canadá é Ottawa. Cândido Portinari é o maior pintor do Brasil. A palavra assassino tem quatros esses. O melhor time do Brasil é o Corinthians. Paulo Maluf é um #&*@!#$%¨&*!! Existem dois partidos no Brasil: Arena e MDB. Eu sou MDB.Vai comprar meu jornal, mas traz o Cidade de Santos. Só compre A Tribuna se o Cidade de Santos já tiver acabado. Você já tem 9 anos e ainda não sabe todas as capitais do Brasil? Traz o meu Guaraná gelado. Pega água pra mim. Eu, um peão, concorri com um monte de engenheiros e tirei o primeiro lugar na prova de conhecimentos gerais. Liga o toca-discos e põe no último volume. Se sua mãe se separasse de mim, você ficaria comigo ou com ela? Eu acho que nunca iria conseguir dirigir. Vou parar de beber quando as meninas ficarem mocinhas porque não quero que sintam vergonha de mim. Namoro até tarde? Na minha casa cabra-macho não vai passar das nove da noite. Não quero morrer velho, basta eu formar minhas filhas na faculdade e já está bom. Fica quieta, que eu tô assistindo o jornal. Solte o cachorro. Se acontecer alguma coisa com uma das minhas filhas eu me atiro na linha do trem. Acho a Angelina Muniz a mulher mais bonita do Brasil. Essa é uma pergunta idiota.Eu não sei o que você vê nesses Menudos, pra mim são todos uns veados. Se eu tivesse estudado, seria jornalista. É a profissão mais bonita que existe. Eu odeio despedidas. Calma, minha filha, a viagem já vai acabar”.

Essas frases são as peças principais que compõem o quebra-cabeça formado pelo meu pai, morto quando eu tinha 13 anos. Não sei se um dia conseguirei montá-lo completamente, mas prosseguirei tentando.

segunda-feira, maio 23, 2011

Transpiração e inspiração: o par perfeito

“A inspiração não é de todos os instantes. Só os loucos têm inspiração permanente”. Esta é uma das tantas frases sensacionais do poeta, romancista, crítico e musicólogo Mário de Andrade. Li-a ontem à noite, à página 249 do essencial História do Modernismo Brasileiro, de Mário da Silva Brito. Imediatamente, fui levada a refletir sobre o ofício da escrita e, por extensão, os conceitos de arte e criação. Outra variação sobre o mesmo tema advém de uma lembrança pessoal: trata-se de uma máxima do professor Dirceu Fernandes Lopes que, em suas aulas de História do Jornalismo no Brasil, frisava: “Escrever é 5% de inspiração e 95% de transpiração”.

Tanto a frase de Mário de Andrade quanto à do professor Dirceu nos remetem à importância do trabalho árduo em detrimento da espera acomodada pela inspiração divina. Ambas escancaram a verdade: quem escreve, pinta, toca, compõe, esculpe, atua, dança ou realiza qualquer outro tipo de atividade artística precisa ser, antes de tudo, um trabalhador. Um operário cujo esforço e labuta devem ser diários. Horas de prática, treino, reflexão, tentativa, erro, acerto, suor e cansaço são necessárias para exercitar os neurônios, abrir os poros da intuição e dilatar as pupilas da alma. Sem essa série cotidiana de ginástica física, mental e psicológica não há inspiração que se aproxime. Até porque ela é uma figura lindíssima, cheia de charme, exigente. E só aceita fazer par com quem luta, de forma obstinada, para merecê-la.

domingo, maio 22, 2011

Solidão

Ficar sozinha, por vezes, pode ser uma dádiva. No meu caso, pelo menos, a solidão traz consigo um aguçado senso de observação. Meus sentidos se elevam à quinta potência e me permitem ler e escrever com uma dose de entrega muito superior à do dia a dia, quando, geralmente, o tumulto é geral.

A leitura, por exemplo, se torna uma viagem bastante próxima do real, uma vez que a quietude possibilita um mergulho profundo no reino das palavras. Aliás, diferentemente dos mergulhos realizados na água, submergir às grandes profundidades de um texto geralmente nos traz mais oxigênio, além de eliminar qualquer possibilidade de pressão.

É verdade que a superfície tem seus encantos. Mas também é verdade que ela pode esperar.

quarta-feira, maio 04, 2011

Hilda Hilst e Adélia Prado


Com Hilda Hilst, em 2002, durante entrega do Prêmio Moinho Santista, concedido à autora pelo conjunto da obra.


Com Adélia Prado, em 2010, durante palestra que a poeta realizou em Cubatão.

Isso é incrível, mas só hoje me ocorreu avisar aqui no blog que minha dissertação de mestrado, defendida em 2003 e intitulada O sagrado e o profano nas poéticas de Hilda Hilst e Adélia Prado ,está disponível para leitura no meu site (que, por sinal, está desatualizadíssimo). Um trabalho que me tomou dois anos e do qual eu tenho um orgulho danado. Um mergulho profundo na obra de duas autoras que admiro muitíssimo. É uma pena que Hilda não esteja mais conosco, pelo menos no plano físico. Este trabalho tem sido, para mim, uma forma de reafirmar, sempre, o quanto eu as considero eternas. Para ler, basta clicar aqui.

Em tempo: quando tirei essa foto com Hilda, ela já falava e caminhava com extrema dificuldade devido à isquemia cerebral que havia sofrido. Na ocasião, a poeta estava em muitíssimo boa companhia, cercada por amigos queridos, como a escritora Lygia Fagundes Telles, o querido escritor Mora Fuentes (falecido em 2009, Mora nos recebeu carinhosamente na Casa do Sol, onde Hilda viveu durante décadas, em 2007, em dia inesquecível que relato aqui) e a artista plástica Maria Bonomi (que aparece à esquerda da foto, sorrindo). Com a cara de pau que me é peculiar, ao fim da cerimônia pedi licença ao grupo, me aproximei de Hilda, me apresentei e disse: "-Hilda, estou concluindo uma dissertação de mestrado sobre você e Adélia. O tema é tal, etc".

Em entrevista concedida aos Cadernos de Literatura Brasileira, publicado pelo Instituto Moreira Salles, Hilda já confessara que ficava comovidíssima quando descobria que fulano ou beltrano estava escrevendo uma dissertação/tese sobre sua obra. E naquele momento tive certeza de que a afirmação era a mais pura verdade. Debilitada pela doença, falando de modo compreensível apenas para os mais íntimos, Hilda resolveu poupar as palavras comigo. Ao ouvir meu relato, simplesmente pôs as duas mãos em meu rosto e me olhou com ternura imensa, emoldurada pelos olhos rasos d'água.

Hilda nos deixou em 4 de fevereiro de 2004.