terça-feira, março 30, 2010

O fim das tardes vazias



A gente já se conhecia desde a oitava série, mas, por motivos vários, só começamos a namorar dois anos depois. E tudo teve início, de fato, quando decidi ligar pra ele, numa tarde distante de 1989. Pouco depois de atender, ele me disse que eu havia sido a salvação daquela sua "tarde vazia"... E lá se vão 21 anos de histórias, com direito a dois filhos lindos e 14 anos de casamento, comemorados hoje.

Parabéns pra nós, baby. E obrigada por todas as tardes (e noites e dias...) - que nunca mais foram vazias.


domingo, março 28, 2010

O dia em que levei um fora da poesia



Hoje acordei resoluta: a poesia não haveria de me escapar novamente!
Então, ao vê-la faceira, de vestido branco, em meio àquela festa de sentidos, enchi os pulmões de ar e, tal qual amante latino, segurei-a pela cintura e puxei-a com força em minha direção - disposta a suportar um possível tapa na cara. Mas o que a aconteceu foi ainda pior...

Altiva – e do alto de sua beleza estonteante –, a danada me sorriu com um misto de piedade e sarcasmo (mistura que só ela consegue engendrar, diga-se). Então, com suavidade, retirou minha mão pesada de seu corpo delgado, lançou um olhar fulminante pro horizonte das duas janelas de minha alma cabocla, e disparou: “Desculpe, mas hoje eu realmente não estou a fim. Outro dia, quem sabe?”.

E foi-se embora, rebolativa, na direção de um grupo de rapazes boêmios que, de certo, iriam compor o samba mais bonito de suas vidas.

Saí cabisbaixa do salão e, de uma vez por todas, ciente de que a inspiração, assim como o amor, independe de nossa vontade.

Goimar Dantas
São Paulo
28 de março de 2010

quarta-feira, março 24, 2010

A dor do parto




Minhas costas doem por suportar o meu mundo.
E o músculo, coitado,distendido, dilatado, lembra vidro estilhaçado.
Poça d’água pisada pelos pés de mil meninos.
Tento me erguer e olhar adiante,
mas nem sempre o corpo atende ao comando do querer.
Corpo que não é forte, apesar de eu ser do Norte:
sertaneja que peleja só com a pena, sem cessar.
Pena que cava fundo no solo dos sentimentos
(até achar mina de poesia no vão da lavra dos dias).
E então, do coração, essa terra tão fértil quanto solitária,
brotam textos verdejantes que fazem sombra lá adiante,
onde irei me recostar.
É quando a dor vai-se embora
por tempo suficiente pra eu parir novas histórias,
que de minha frágil costela, novamente, irei tirar.

Goimar Dantas
São Paulo
24-03-2010.

quarta-feira, março 17, 2010

Um presente



Tenho verdadeira compulsão por compartilhar coisas as quais considero essenciais: textos, imagens, dicas de leitura e de filmes. Por isso, em dezembro de 2009 inseri aqui no blog um post em que contava de minha alegria em descobrir a escrita arrebatadora da escritora portuguesa Agustina Bessa-Luís, mais especificamente em sua obra Antes do Degelo.

Demorei quase um mês para concluir as 366 páginas do livro. Primeiro porque leio devagar, sorvendo as linhas e entrelinhas como se néctar fossem. Depois, porque estava em meio a um intenso ritmo de trabalho e, realmente, me restava pouco tempo para aproveitar a leitura como se deve: aos poucos, sentindo aroma, sabor, textura e outras sensações que nos permitem ir ao âmago dos personagens, como se de fato, vivêssemos e sentíssemos cada uma de suas experiências.

E só agora, três meses depois, consegui uma folguinha para reproduzir, neste espaço, algumas das frases de que mais gostei na obra de Agustina. Como sempre, grifei-as durante a leitura.

Espero que vocês as recebam como uma espécie de presente nesta semana em que o blog ultrapassou os 400 posts (e o que são posts, senão meu jeito de compartilhar um pouco de mim com vocês, desde 2006?).

Aí vão as pérolas deixadas no mar de Antes do Degelo, de Agustina Bessa-Luís, Guimarães Editores, Lisboa, 2004.




1. Eu sempre tive um fraco pelos mestiços. Trazem no sangue um segredo inviolável de tremendas combinações de desejos mal saciados.

2. Em geral donzelas de livros lavam no rio mas não estendem a roupa que lavam. É um erro porque os braços levantados fazem realçar a cintura, e levantam a saia, e produzem mais ilusões para que o amor desabroche.

3. Quando não houver mais esse gosto das coisas inabordáveis e trágicas, não haverá romance, nem literatura, nem nada.

4. Nós só nos conhecemos como homens quando começamos a ser feitos de palavras.

5. Sem escândalo nem temor não se fazem reinos.

6. Ele divertia muito José Rui; passamos bem sem quem nos ama, mas não sem quem nos diverte.

7. Não me falta nada do que preciso. Do que eu quero falta-me muita coisa.

8. Essas relações de juventude, em que não há segredo nem decoro, têm um caráter de saturnais que se não repetem e que são destinadas ao esquecimento.

9. A eloqüência tem que ver com a imagem dum afogamento. Não percebes nada da cultura mediterrânea. Vive da persuasão, não da justiça. O sinal da cruz, por exemplo, cura tanta gente como os antibióticos. O gesto é tudo.

10. Eram inseparáveis, uma dessas amizades que costumam acabar mal porque se esgota a dependência que se criou.

11. Alguma coisa no amigo lhe fazia medo; um medo estimulante, quase agradável, como o percurso de um vício.

12. Na sua imensa sabedoria (tinha uma intuição feminina que raramente o enganava) percebia que as palavras que se evitam são as que nos salvam.

13. (...) ela levantava-se às onze horas, muito por favor, e lia até tarde no quarto, cada vez mais instruída, erudita e com pouca disposição para os tolos.

14. Era meio filósofo, que é no que se tornam os infelizes que se ignoram.

15. Há sempre uma árvore particular nas memórias de uma pessoa triste.

16. Tinha-se a ideia de que a poesia é qualquer coisa que se dispensa e até prejudica. É uma espécie de habilidade, um jogo servido pelas palavras.

17. Era uma coisa tão bonita que nem precisava ser vivida, bastava ser recordada.

18. O crime não interessa, o que interessa é a culpa.

sexta-feira, março 12, 2010

Eucanaã Ferraz - Uma certeza



Se tem uma coisa de que eu gosto no mundo é poder ver (ouvir) poetas falando sobre poesia e o fazer poético. Trata-se de uma expressão sempre única, singular. Cada um entende e faz poesia de um jeito diferente. Também é assim com a prosa, e não poderia mesmo ser de outro modo, uma vez que ambas (poesia e prosa) compõem o mistério da criação. E não há nada que me seduza mais do que isso.

Outra coisa que me seduz são algumas das certezas que trago na vida. Elas permanecem firmes, a despeito das impossibilidades, das distâncias, das dificuldades que o mundo possa impor para que elas, minhas certezas, se concretizem de fato. Uma delas é o meu encontro com o poeta Eucanaã Ferraz. Não sei quando vai ser, mas vai. E aí está o mistério novamente. Sempre ele.

Em tempo: descobri esse vídeo no ótimo blog 25 linhas em branco, da Janaína Pietroluongo. Obrigada por compartilhar, Janaína. E por me oferecer essa espécie rara de tijolo, que só consolida a casa de uma das minhas certezas.

quinta-feira, março 11, 2010

Neogeografia




A fenda que existe no vão do teu peito
é caminho estreito
(e abismo sem fim).
Céu e mar aberto.
Planície,
deserto.
Quintal e universo.
O roteiro certo
na busca por mim.

Goimar Dantas
São Paulo,
07-03-2010

sexta-feira, março 05, 2010

O homem que engarrafava nuvens



Eu p-r-e-c-i-s-o ver esse documentário sobre o compositor Humberto Teixeira. Muito, muito, muito.

quarta-feira, março 03, 2010

Chimamanda Adichie - e outras histórias



Pode ser que eu não tenha tempo para ler jornal, revista, livros. Pode ser que eu não saiba mais de nada. Pode ser que eu não me lembre de quem sou. Pode ainda ser tudo, pode também ser só um pouco. Pode ser dia, pode ser madrugada. Não importa o que pode ser. O fato é que, cotidianamente, eu driblo a correnteza dos afazeres e navego no mar da Lisboa que não fica em Portugal. Trata-se de outra Lisboa: ela, a escritora. A que eu leio nos livros e também aqui, no universo virtual, onde sempre encontro preciosidades. E uma das pérolas achadas esta semana foi esse vídeo incrível trazendo como protagonista essa mulher tão negra e tão linda como uma noite promissora.

Uma mulher cuja voz firme e, ao mesmo tempo, doce, me lembrou tudo o que já li sobre o canto das sereias. Eu me deixei levar por ela e aconselho você a fazer o mesmo. O nome da sereia-escritora-nigeriana mais parece um chiado. Um sussurro. Uma melodia (prosseguimos, como se vê, no universo mítico dos seres que são metade mulher, metade peixe). É Chimamanda Adichie. Ela nos fala, com incontestável conhecimento de causa, sobre o perigo de contar sempre as mesmas histórias e também de acreditar nelas. Clique em "view subtitles" para escolher o idioma das legendas. E faça, você também, uma ótima viagem.

domingo, fevereiro 28, 2010

José Mindlin - uma inspiração



Sempre tive paixão por José Mindlin, o mais importante bibliófilo brasileiro, que nos deixou hoje, aos 95 anos. Ao longo da vida, Mindlin e a esposa Guita foram responsáveis por compor e preservar a maior biblioteca particular do Brasil. Parte dela, a famosa Brasiliana, composta apenas por títulos que se referem ao nosso país, em seus mais variados temas, foi recentemente doada para a Universidade de São Paulo (USP). Até porque a maior preocupação de Mindlin era a de que todos pudessem ter acesso às preciosidades que colecionou desde os 13 anos.

Mindlin era o nosso Borges, um homem cujo maior orgulho era estar rodeado de livros, sendo capaz de lutar 15 anos para encontrar e adquirir um exemplar da primeira edição de O Guarani, de José de Alencar. Espero que o autor de Ficções e O Aleph possa recebê-lo no além com a pompa e a circunstância que Mindlin merece: com livros e braços abertos.

sexta-feira, fevereiro 26, 2010

Sina




E mesmo sozinho
No poço sem fundo
O poeta ouve o eco do mundo.

Goimar Dantas
São Paulo
21-02-10

quarta-feira, fevereiro 24, 2010

Lisboa, Pessoa e a ciclovia

O Tejo from Abilio Vieira on Vimeo.


Video: Passeio de bicicleta pela margem norte do Tejo, nos arredores de Lisboa, Portugal.

Esse vídeo, que pesquei ontem no blog do Tas, me deu ainda mais vontade de conhecer Lisboa. Imaginem poder pedalar admirando o Tejo e, ao mesmo tempo, lendo Fernando Pessoa. Um dia eu vou.

O Guardador de Rebanhos

Alberto Caieiro (heterônimo do poeta Fernando Pessoa)


Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia,
Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia
Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia.

O Tejo tem grandes navios
E navega nele ainda,
Para aqueles que vêem em tudo o que lá não está,
A memória das naus.
O Tejo desce de Espanha
E o Tejo entra no mar em Portugal.
Toda a gente sabe isso.
Mas poucos sabem qual é o rio da minha aldeia
E para onde ele vai
E donde ele vem.
E por isso porque pertence a menos gente,
É mais livre e maior o rio da minha aldeia.

Pelo Tejo vai-se para o Mundo.
Para além do Tejo há a América
E a fortuna daqueles que a encontram.
Ninguém nunca pensou no que há para além
Do rio da minha aldeia.

O rio da minha aldeia não faz pensar em nada.
Quem está ao pé dele está só ao pé dele.

sexta-feira, fevereiro 19, 2010

Bagagem



E as recordações
da viagem
são o melhor da bagagem.



Como essas que vivemos em tarde inesquecível no Parque de Esculturas Ricardo Brennand, no Recife.



Eu em momento Mito de Sísifo, tentando alcançar o azul de Recife.



Tatá em transe verde e rosa, também no Parque de Esculturas Ricardo Brennand, no Recife.



Yuri de peito aberto, vendo a tarde engolir o mar da Praia de Boa Viagem.

quinta-feira, fevereiro 18, 2010

Poesia visual




Este vídeo traz fotos de Julia Jackson, mãe da escritora Virginia Wolf e sobrinha da incrível fotógrafa Julia Margaret Cameron, uma das pioneiras na arte de transpor poesia em imagens. Ter acesso ao trabalho de Cameron só foi possível graças às aulas do curso básico de fotografia e também de uma oficina sobre o tema, as quais concluí ano passado. Adoro a delicadeza dessas imagens, os tons e a capacidade de eternizarem um olhar e uma fisionomia tão expressivas.

Ainda sobre este vídeo: de acordo com a fotógrafa Márcia Alves, minha professora na oficina de fotografia, a linda trilha sonora é da banda Antony and Johnsons.

Em tempo: recomendo vivamente uma visita à galeria da Márcia lá no Flickr. É só clicar aqui.

Deleite-se!

sábado, fevereiro 13, 2010

Acadêmicos da escrita



O Carnaval tradicional é um estranhamento para mim. Todo ano é a mesma coisa: a Festa de Momo vem e me encontra concentrada, terminando algum texto cujo prazo de entrega está batendo às portas, com uma pressa, um ritmo, uma força e uma cadência muito superiores aos das baterias das escolas que se enfileiram nas avenidas Brasil afora.

E diferentemente desses lindos meninos que fotografei mês passado em Olinda, minha fantasia é costurada com linhas e tramas alfabéticas, acrescidas de acessórios de morfossintaxe e estilística. E ao invés de plumas, penas. Penas cuja função é extrair palavras do tinteiro do mundo.

Nos pés, um salto muito alto, não para sambar, mas para compensar minha estatura tão pequena frente à grandeza das coisas que preciso ver e registrar. Para quem escreve abrindo mão da purpurina em detrimento do lirismo, o Carnaval é sempre uma festa solitária, plena de alegria e beleza, mas também de medo e incerteza.

No bloco compacto do texto, ensaístas substituem passistas, romancistas compõem, sempre, a comissão de frente, poetas dominam, claro, os carros alegóricos, biógrafos fazem as vezes de puxadores de samba (porque em seu ofício tentam trazer à tona as melhores histórias, dando voz e visibilidade a enredos que estariam perdidos no tempo e no espaço, não fossem eles a juntá-los em única composição). E a flâmula dessa escola... Ora, essa quem porta só poderia mesmo ser ele: Bandeira, que se desloca da ala dos poetas para honrar o nome tão propício ao carnavalesco ofício.

Mas que ninguém se engane: na Acadêmicos da escrita, todo mundo pula numa solidão de dar dó. Um não pode ajudar o outro. Quem cai tem de se levantar sozinho. Quem perde o fôlego fica pra trás. Quem quebra o salto não participa mais.

E como este ano minha folia é sair no "Bloco da biografia", peço licença pra ir ali aquecer a voz e o verbo, porque já está chegando a hora de eu cantar/contar uma linda história.


Goimar Dantas
São Paulo
13 de fevereiro de 2010

sábado, fevereiro 06, 2010

A casa do poeta



Uma das tantas casas poéticas da Praça Cláudio Manuel, na cidade de Mariana, Minas Gerais.



A casa do poeta nem sempre tem janela,
Mas tem horizonte, de fronte.

A casa do poeta nem sempre tem relógio,
Mas tem o mistério do tempo, lá dentro.

A casa do poeta nem sempre tem quintal,
Mas tem o particular, onde se acha o universal.

A casa do poeta nem sempre tem quartos,
Mas tem um infinito de espaços pra sonhar.

A casa do poeta nem sempre tem varandas,
Mas é verdade que tem um sem fim de veredas .

A casa do poeta não tem banheiro,
Mas tem chuveiro de estrelas (e o vão do buraco negro).

A casa do poeta não é feita de cal nem cimento.
Mas sim de campo vasto, praia deserta, pó de sertão e vento.

Goimar Dantas
São Paulo
13-05-09

terça-feira, fevereiro 02, 2010

Oferenda



Neste dia dois de fevereiro, em que se rendem homenagens à Rainha do Mar, esta imagem é minha singela oferenda, captada na Praia de Boa Viagem, Recife, Pernambuco.

quinta-feira, janeiro 28, 2010

Marginal até debaixo d'água





E essa última pancada de chuva me lembrou:
há dias bombeiros procuram minha Poesia Marginal,
engolida pelo Rio Pinheiros.
Ao que parece, em meio a uma dessas tempestades de Verão,
ela se deixou levar por um córrego que a seduziu
com promessas de Mar.
Foi vista pela última vez agarrada a um pneu,
gritando por socorro em três idiomas,
próxima à Ponte Cidade Universitária,
Zona Oeste de São Paulo.
Poesia afogada em esgoto acadêmico...
Marginalíssima, até o fim!

Goimar Dantas
São Paulo
23-01-2010.

quarta-feira, janeiro 20, 2010

Recife e Olinda: crônica de uma viagem anunciada


Rua da Aurora.

Gostei do Recife, mas ainda prefiro aquela outra capital pernambucana, tão lindamente descrita nos poemas de Manuel Bandeira. A Rua da Aurora não é mais o cenário bucólico onde se ia pescar nas linhas de "Evocação do Recife". Longe disso. O segurança do Palácio das Princesas foi quem alertou: “Se vai à Rua da Aurora, tenha cuidado com a máquina fotográfica”. Triste. O medo das ruas onde antes se podia brincar, pescar, namorar debruçado sobre portões ou janelas. As mesmas ruas onde futuros poetas, ainda crianças, sorviam o sumo que, mais tarde, se transformaria em arte.


Oficina Brennand.

Mas a poesia ainda resiste na obra de gênios, como a do artista plástico Francisco Brennand – que se configurou como a maior descoberta desta viagem. É de Brennand uma Oficina gigantesca, misto de casa, museu e ateliê que o artista mantém a cerca de trinta quilômetros do centro. Mas sendo mago do barro, da argila, da cerâmica e dos pincéis, Brennand me captou mesmo foi pelos quadros de suas lindas meninas-mulheres: todas elas habitantes de becos ou de contos de fadas. Pena não poder fotografá-las.



Foi também no Recife que deparei com um pôr-do-sol lindíssimo, pintura inflamável prestes a explodir num gozo amarelo e febril. E em meio a ela, um jovem negro, magro e alto empunhava, soberano, sua singela vara de pescaria, completamente alheio ao quadro que surgia, magnífico, de suas mãos hábeis. As mesmas que, por sua vez, me fizeram pescar esse sonho.


O colorido fridakhaliano da Rua Bom Jesus

Perto dali, vi poesia nas cores dos edifícios e sobrados da Rua Bom Jesus, antiga Rua dos Judeus, onde está localizada a mais antiga sinagoga das américas. Um lugar que transpira história pelas suas paredes de tijolos antigos, poros de uma civilização palpável em sua mistura de massa, cal, suor e conhecimento vindos de povos holandeses, lusitanos e africanos. Para tocá-la, basta que o viajante feche os olhos, num exercício necessário e benéfico de desapego do presente.


Feliz por estar enredada à trama da sensibilidade pétrea e, ao mesmo tempo, fluida de João Cabral de Melo Neto.

É o que faço quando sigo rumo às cidades atemporais: deixo-me levar por séculos, enlaçada à aura de fantasmas boêmios: poetas, escritores, jornalistas, pintores, escultores, comerciantes e advogados que, não raro, lutaram pela liberdade em tempos idos. Espíritos livres cuja energia ainda flui pelos lugares onde viveram, amaram, morreram. Foi assim em Ouro Preto, Mariana, Recife e Olinda.


As casas arco-íris de Olinda.

Olinda, por sinal, é uma cidade eternizada cujo adjetivo mais propício para descrevê-la está em seu próprio nome: linda rainha multicor, especialista em folias carnavalescas. Em Olinda tudo tem a cor da alegria, assim como Flávio, o melhor guia encarnado que já conheci por minhas andanças. Flávio é o retrato de um Brasil que se reinventa, posto que não lhe dão oportunidades herdadas desde o berço. E contrariando previsões pessimistas, Flávio tornou-se mestre das histórias e da História, com "H" maiúsculo, de Olinda. Professor-doutor na arte de encantar, percorreu toda a cidade conosco, explicando pedra sobre pedra, tinta sobre tinta daquele universo tombado pela materialização arquitetônica do Arco-Íris.


Flávio sob o vestido da boneca "Menina de Pernambuco".

E Flávio citou datas, acontecimentos, personalidades. E demonstrou como se dança carregando os tradicionais bonecos gigantes no Carnaval de Olinda - ele mesmo exímio bailarino a segurar o peso de toda uma cultura sobre os ombros. E em meio a tudo isso, Flávio não tirou o sorriso do rosto. Nem nós, que tivemos a sorte de tê-lo ao nosso lado.


Bailarina nas ruas de Olinda


Vista da Praia de Boa Viagem.

Já a praia de Boa Viagem ficará em minha memória como uma bela fotografia: enquadramento mítico para ser apreciado apenas por sua estética, porque inacessível em sua realidade agressiva: cheia de pedras, algas e placas de "Cuidado com os tubarões". Definitivamente desaconselhada para crianças e covardes de marca maior - grupo no qual eu definitivamente me incluo. Também estivemos em Porto de Galinhas, mas por falta de tempo, este post terá de ficar pra depois. No mais, peço licença à elegante Constanza Pascolato, autora de uma frase que considero um deleite, tamanha a dose de verdade que encerra: "Gosto de viajar porque depois posso voltar pra casa".

É isso. Todos aqui de casa já estavam com saudades do nosso cantinho. Até a próxima!

sexta-feira, janeiro 08, 2010

Ouro Preto e Mariana



Seu eu tivesse tempo, daria pra escrever um livro sobre os dias em que passei em Ouro Preto e Mariana. São tantos assuntos, histórias, impressões e sentimentos que me recuso a esgotar tudo em poucas linhas. Este post será apenas o primeiro de uma série. Isso porque viajo novamente amanhã e é impossível me alongar agora. Só o Pouso do Chico Rei, onde nos hospedamos, rende um texto inteiro. Mas a despeito da minha correria, deixarei um gostinho do que foi a viagem por aqui, por meio de algumas poucas fotos e uma breve explicação sobre o Pouso.

Essa primeira imagem, por exemplo, traz a sala de café lá do Pouso do Chico Rei. Escolhi essa pousada a dedo porque é onde se hospedavam Vinicius de Moraes, Pablo Neruda e a poeta americana Elizabeth Bishop, dentre outros tantos ícones literários e artísticos, sempre que passavam por Ouro Preto. Todos eram amicíssimos das proprietárias, Lili e Ninita. Mais tarde, Bishop comprou uma casa na cidade, coisa que eu também faria se pudesse.

Todos os quartos recebem os nomes desses e de outros artistas, como o quarto Guignard, em homenagem ao grande pintor brasileiro, cuja obra pude conhecer melhor graças a essa viagem a Ouro Preto. Ficamos em dois quartos: primeiro, no Elizabeth Bishop, cujas instalações e a vista são lindas. Depois, no quarto Pablo Neruda.



Os espaços comuns aos hóspedes, como a sala de café e a de leitura, são lindamente decorados. Os móveis são "todos em madeira de lei", como diz Vinicius no poema dedicado ao lugar (para ler o samba e o poema que o autor de Vinicius compôs em tributo ao Pouso clique aqui). Tive a oportunidade de ter acesso ao antigo livro de hóspedes, que contém cartas e bilhetes do "poetinha" que, de diminuto, ao meu ver, não tem nada. Para mim ele sempre foi grande. Imenso. E o livro é uma verdadeira relíquia: além dos bilhetes e cartas de Vinicius, há textos e desenhos de Maysa, Guignard, Maria Bethânea e outras tantas celebridades brasileiras.

"O Pouso", bem como toda a cidade, recebe turistas do mundo todo. Durante os dias em que estivemos lá, o francês, o inglês e o italiano eram os idiomas mais falados nas ruas. Nunca pensei que o turismo internacional fosse algo tão comum em Ouro Preto. Na verdade, fiquei estupefata ao perceber que a maioria dos hóspedes que dividia o pouso conosco nesta semana eram franceses. Pra mim foi ótimo, uma vez que pude treinar um pouquinho o idioma, que anda bem enfurrajado desde o final do meu curso, há um ano e meio.



Essa é uma das vistas do quarto "Elizabeth Bishop". Aliás, Ouro Preto é farto em igrejas barrocas - uma mais linda que a outra. No domingo de manhã, todos os sinos repicam em uníssono: um espetáculo inesquecível - mesmo para quem gosta de dormir até tarde, como é o meu caso.



Tive medo de que as crianças achassem o passeio cansativo, chato. Afinal, achei que temas que remetem às igrejas, aos museus, à Arte Sacra e à maravilhosa história da Inconfidência Mineira são por demais áridos para pré-adolescentes do século 21. Mas eu estava errada. Amém. Eles amaram o tour, sobretudo o passeio de trem Maria Fumaça, para a cidade de Mariana. Yuri se sentiu o próprio Harry Potter indo para a famosa escola de Bruxaria e Magia Hogwart's. :)



Quanto a mim, fica difícil dizer o que mais gostei. Mas vou tentar elencar algumas coisas: O Museu da Inconfidência, a Casa dos Contos, os restaurantes, a Casa Guignard, a atmosfera literária e histórica que permeia tudo e todos na cidade, o bate-papo com a quase centenária Maria Bárbara de Lima, proprietária da casa em cujos fundos foi descoberta, na década de 40 do século passado, a famosa Mina do Chico Rei, personagem ímpar da história de Ouro Preto. Dona Bárbara, aliás, conheceu Cecília Meireles na época em que a escritora realizava pesquisas para escrever seu belíssimo "Romanceiro da Inconfidência".

O fato é que ainda preciso organizar as mais de mil fotos que tirei de Ouro Preto e Mariana. Em todo o caso, quem desejar matar um pouco da curiosidade pode clicar aqui, onde postei mais algumas.

Nos próximos dias, estarei fora novamente para mais um roteiro turístico com o qual sonho há anos. Até a volta!

quinta-feira, dezembro 31, 2009

Feliz Ano Novo!



Eu não estou no mar, ainda. Mas adoro essa foto, de 2006, e a considero perfeita para um dia em que tudo o que a gente quer é abraçar logo o futuro e as coisas boas que esperamos dele. Por enquanto, estou nas montanhas de Minas Gerais, no meu refúgio localizado em Santa Rita do Sapucaí, trabalhando muito na revisão da biografia do editor José Xavier Cortez, que concluí há uns 15 dias. Um trabalho enorme que ainda deve durar até fevereiro.

Sempre trago trabalho para as férias e não reclamo mais. Já me acostumei com essa correria todo o final/começo de ano. E se a correria e o cansaço são por conta de um livro novo, não tenho mesmo do que reclamar. Poder fazer o que se gosta é sorte. E das grandes. Além do mais, estou ao lado da minha família do coração, a do "Meu bem, meu Maurício" , que me aguenta já há uns 20 anos. O Natal passamos em São Paulo mesmo, dessa vez com minha família de sangue: mãe, irmã, sobrinha, cunhado, padastro e ainda os amigos do peito, pertencentes as famílias Mukai e Teramito. Foi tudo muito bom e divertido, como tem de ser.

Sábado caíremos na estrada novamente, com a bênção de Jack Kerouac, que era um viajante e tanto. E confesso que mal posso esperar porque visitarei cidades e estados com os quais venho sonhando há tempos. Em breve postarei fotos da aventura por aqui.

Espero que o ano de 2010 traga, sobretudo, muita saúde para todo mundo. Até porque é ela, a saúde, que nos permite conquistar todo o resto. Mas, nunca é demais querer que ela esteja acompanhada de paz, amor, alegria, felicidade, sucesso, trabalhos interessantes, viagens inesquecíveis.

São meus desejos, sinceros, para os poucos (e bons!) que sempre estão por aqui, há mais de três anos!



Em tempo: também estou feliz demais porque além das viagens, começarei o ano dando sequência à leitura de um romance maravilhoso, que ganhei do meu amigo Leo, é Antes do degelo, da escritora portuguesa Agustina Bessa-Luís (Guimarães Editores, 2004, Lisboa, 366 páginas). Comecei a leitura há dois dias e estou completamente alucinada com a escrita monumental de Agustina. Pena eu só ter tempo de lê-lo antes de dormir, uns poucos minutos. Mas, enfim, é um deleite que eu vou sorvendo aos poucos.

Em tempo II: deixo vocês com uma das minhas imagens preferidas deste Natal: minha sobrinha Verônica, linda, na varanda lá de casa. Um 2010 sensacional pra todo mundo!