O editor potiguar José Xavier Cortez, há 43 anos radicado em São Paulo, faz aniversário hoje e um dos presentes que recebeu foi esse trailer do documentário O semeador de livros, em fase final de edição. O roteiro, que traz à tona a trajetória cinematográfica da vida de Cortez, é de Heloisa Dias Bezerra e Wagner Bezerra, que também assina a direção.
Além desse documentário e da biografia, que escrevo em co-autoria com a historiadora Teresa Sales, Cortez será, em 2010, a estrela maior das comemorações dos 30 anos da tradicional Cortez Editora, criada por ele e especializada na publicação de livros acadêmicos, muitos deles voltados às áreas de educação e serviço social.
Meu bem, meu "Mau", que faz aniversário hoje, recebendo pela sétima vez consecutiva, em nome do Senac, o prêmio Top of Mind.
Ele não precisa ler muito, pois sabe tudo. Já eu preciso ler tudo, pois não sei nada. Ele é introspectivo, preza o silêncio e a reflexão. E eu sou filha da história, Sherazade de formação. Ele luta Kung fu, enquanto eu pratico Yoga. Ele se expõe em planilhas e eu em versos e prosa.
Ele sabe contar, calcular a porcentagem! E eu? Ora, eu sei narrar, escrever, falar bobagem. Ele prefere o campo e eu, se sonho, é com o mar. Ele dorme no avião(!) e eu só faço rezar.
Ele se impõe no olhar, eu me apóio na oratória. Ele é rei da concisão e eu da dissertação. Ele comanda 30 e eu não chefio ninguém. Ele enxerga o hoje e eu só vejo o além.
Na emergência, ele é mansidão – já eu viro tempestade. No dia a dia, sou mais calma, ele grita por bobagem. Ele dirige em São Paulo, em Minas, nas rotas do litoral. Eu me perco no bairro, a pé, indo à banca de jornal.
Ele negocia o mundo, multiplica, contrata, demite, produz! E eu? Eu fico em casa escrevendo, bastando um facho de luz. Ele usa terno e gravata, gel no cabelo, perfume importado. Eu uso saia de algodão, com renda, florzinha e babado.
Ele é “João Balalão, senhor capitão, capote vermelho, chapéu de galão, espada na cinta, ginete na mão, João Balalão, Balalão, Balalão”. E eu sou “Senhora Dona Sanja, faz favor de entrar na roda, diga um verso bem bonito, diga adeus e vá-se embora!”.
No jogo ele grita “Goooooooooool”! E eu sequer presto atenção. Na música ele desafina e eu sou pleno pulmão. No amor ele é puro instinto, força física, paixão! E eu pulso na poesia, romantismo e coração.
Ele é a minha lógica, minha dose de razão. Ele é o mundo lá fora, puro poder, explosão! E eu? Meu Deus... O que eu sou? Só uma moça do sertão.
Na última quinta-feira fomos assistir ao excelente espetáculo O capitão e a sereia, direção de Fernando Yamamoto, no teatro do Sesi Vila Leopoldina, aqui em São Paulo. A peça é uma adaptação do livro homônimo do talentoso escritor e ilustrador André Neves, feita pela companhia potiguar Clowns de Shakespeare.
Há anos eu não tinha acesso a uma apresentação teatral tão impregnada de lirismo, poesia e musicalidade. Acho que minhas últimas experiências nesse sentido ocorreram à época da faculdade de jornalismo, quando vi o inesquecível – e consagrado – Romeu e Julieta, de Gabriel Villela, encenado em uma praia de Santos, em pleno sábado à tarde. Pouco tempo depois, pude conferir, na mesma cidade, O auto da paixão, de Romero de Andrade Lima, numa explosão impressionante de criatividade, ritmo e performance cênica, no histórico Teatro Coliseu.
A trupe potiguar não só me presenteou com essas lembranças de juventude como me mostrou sua própria forma de fazer lirismo, cantando, tocando, dançando e narrando histórias pelas vias do coração. Um coração que, no caso específico do texto encenado, batia ao som dos ritmos do mar e do sertão.
Devo confessar que fiquei especialmente tocada pelo fato de a trupe ser potiguar, não apenas pela imediata identificação que essa conterraneidade provocou entre mim e os integrantes do grupo, mas por ter a rara possibilidade de encontrar expositores tão qualificados da cultura do Estado onde nasci, mas que, infelizmente, conheço tão pouco.
Tê-los se apresentando num teatro que fica a poucos metros da minha casa, em temporada que vai até 29 de novembro, me dá a sensação onírica de que o meu Estado, na verdade, são as pessoas que o compõe, e elas – graças aos céus! – têm asas. No caso da trupe dos Clowns de Shakespeare, as asas da arte, da paixão, da poesia e da imaginação.
É verdade. Ando muito cansada. Mas, chova ou faça sol, duas vezes por semana, há quase seis anos, eu paro tudo e vou pra aula de yoga. Por quê? Ora, porque eu sou brasileira e não desisto nunca.
Essa semana entrevistei o professor José Castilho Marques Neto, diretor-presidente da Editora Unesp. A despeito de sua agenda lotada e de seu tempo escasso, Castilho permaneceu comigo uma hora. Tempo em que narrou histórias deliciosas sobre meu biografado, José Xavier Cortez.
Ao entrar em sua sala, fiquei impressionada com esse quadro e, principalmente, com a frase nele estampada. Jorge Luis Borges é um dos meus escritores preferidos e, assim que terminei a entrevista, pedi a Castilho autorização para fotografar o quadro.
O professor não só me deu permissão como contou, entusiasmado, como e onde adquiriu esse souvenir maravilhoso do autor argentino. Embora, de longe, pareça um pôster de papel, trata-se de um tecido, comprado na Feira de Antiguidades de San Telmo, em Buenos Aires e, posteriormente, enquadrado por Castilho.
Por falar muitíssimo, preciso, mais do que ninguém, refletir sobre essa frase. Quem me acompanha?
Eles dirão por mim:
Jose Ortega Y Gasset: "Eu sou eu e minhas circunstâncias".
João Guimarães Rosa, em Grande Sertão: Veredas: "Moça de carinha redonda, entre compridos cabelos... E o que mais foi, foi um sorriso."
Machado de Assis, em Dom Casmurro: "Você já reparou nos olhos dela? São assim de cigana oblíqua e dissimulada".
Vladimir Nabokov, em Lolita: "Lolita, luz da minha vida, labareda em minha carne. Minha alma, minha lama. Lo-li-ta: a ponta da língua descendo em três saltos pelo céu da boca para tropeçar de leve, no terceiro, contra os dentes. Lo. Li. Ta."
Walt Whitman, em Full of life now: "Estás lendo-me. Agora o invisível sou eu,/Agora és tu, compacto, visível, quem intui meus versos e me procura/pensando em como seria feliz se eu pudesse ser teu companheiro./Sê feliz como se eu estivesse contigo. (Não tenhas muita certeza de que não estou contigo)."
Octavio Paz, em Amor e Erotismo - A dupla chama: "Para mim, a poesia e o pensamento são um sistema único. A fonte de ambos é a vida: escrevo sobre o que vivi e vivo. Viver também é pensar e, às vezes, atravessar essa fronteira na qual sentir e pensar se fundem: isso é poesia".