quinta-feira, janeiro 31, 2008

Second life



Era madrugada e eu dormia, mas, meu espírito... Esse estava bem acordado. Silenciosamente, ele deixou meu corpo e saiu voando para encontrar o seu, como de costume. Logo que nossas almas se avistaram, tudo fluiu como deveria e, imediatamente, comecei a sonhar. Lembro de que no sonho você me olhava com uma ternura infinita e não cessava de mexer em meus cabelos. Bastou esse pequeno gesto para eu consolidar a certeza de que é mesmo impossível descrever em palavras o poder de suas mãos – tradução exata da tal felicidade que todo mundo vive procurando.

Em nosso devaneio noturno, estávamos próximos a um rio, numa paisagem que lembra floresta, parque, bosque... Não me recordo absolutamente o que dizíamos um para o outro. Nem precisa. É suficiente a memória dos sentimentos e dos significados trocados quando nos olhávamos. Segui nesse ritmo por tempo indefinido porque, como qualquer mortal, desconheço a dimensão dos segundos, minutos e horas quando se está sonhando. Porém, ao acordar, percebi que tudo durou o bastante para eu concluir: a minha poesia não passa de uma tentativa de expressar o que nossos espíritos ousam viver quando estão libertos. Quando estão soltos nessa outra instância do tempo e do espaço. Lugar onde não há saudade. Fronteira onde não há vontade que não possa ser saciada.

E se não há mesmo outro jeito, aceito, de bom grado, a missão de passar a vida juntando esses cacos oníricos para, posteriormente, compor versos e prosas. É parte do meu ofício tecer a trama da existência através das palavras... É meu destino semeá-las e regá-las. Quem sabe um dia elas possam desabrochar exalando perfumes que o atraiam, verdadeiramente, para perto de mim.

Goimar Dantas
São Paulo
29-01-08

terça-feira, janeiro 29, 2008

Roteiros para um poema



Espelho
Reflexo
Novelo
De lã
A imagem
A trama
A luz
do amanhã
Silêncio
Sonatas
Acordes
De cor
Viagens
No tempo
Em túneis
De amor
Dilemas
Segredos
Lá dentro
Da gente
Cadências
Enredos
São flores
Sementes
Recados
Mensagens
Palavras
Sabor
Poentes
E tardes
O sol
E o calor
A estrela
Cadente
A lua
E o drama
A cama
Vazia
A dor
E a chama
O fogo
Na terra
Suspense
No ar
Cometas
Caindo
No meio
Do mar
No início
Do mundo
No fim
Do oceano
No seio
Terra
É tudo
Um engano
No mais
É a estrada
O passo
O chão
Progresso
Repente
O sim
E o não
No peito
Essa rima
Na morte
O refrão
O corpo
E a alma
Num
Só coração

Goimar Dantas
São Paulo
29-01-08

domingo, janeiro 27, 2008

Presente dos céus



Eu devia ter uns 7 anos
quando tudo aconteceu.
Da janela, vi que a chuva tinha cessado
e, em seu lugar, surgia um sol fenomenal.
Corri para o quintal,
doida pra brincar no balanço.
Mas, quando olhei pro céu... Zás!
Fui atingida em cheio
pelas sete cores do arco-íris
(que me atravessaram o corpo e o espírito).
Adultos (muito racionais)
que passavam por perto
ainda tentaram me socorrer.
Graças aos céus,
de nada adiantaram seus esforços.
Virei poeta, na hora.

Goimar Dantas
São Paulo
25-01-08

sexta-feira, janeiro 25, 2008

O amor de Janaína (musicado por Leandro D'Arco)

video

Ondas quebram,
mas não destroem de todo a tua imagem.
Sereia, mergulho profundamente.
Mas não te encontro.
Em desespero ecoa meu canto.
Encanto.
Num canto.
Sozinha.
Lágrimas do meu amor
Emprestam seu sal ao mar – que era doce no início dos tempos.
E eu seco,
definho,
viro lenda.
Não importa.
Reencarnações depois,
você volta como marinheiro, pescador, surfista...
E então, o sal das minhas lágrimas te envolve por inteiro,
penetrando em sua pele e
mesclando-se à sua essência primeva.
E assim, a natureza prossegue
em ciclos e mitos
que dão seqüência aos amores
possíveis e impossíveis.
No mar e no mais...
Tudo é sal – saudade
que existe, apenas,
para gerar em seu ventre
poemas.

Goimar
Maresias
Litoral Norte de São Paulo

26/03/05

São Paulo Poesia (meu poema musicado por Leandro D'Arco)


Conto de fadas



Aflora em mim um desejo
E, num rápido lampejo
Já sei como saciar

É só eu fechar os olhos
E fingir que tu me levas
Para as bandas de acolá

Fugimos! Estamos sós!
Não há perigo nem hora
O tempo parou na terra
Tudo pra gente se amar...

Não há risco,
Compromisso,
Não há medo,
Não há culpa,
Não é preciso desculpa
Ninguém sabe o que é pecar

A liberdade nos une
Podemos ficar impunes
Não há castigo nem lei

Aqui seremos eternos
Vivendo no meu castelo
Nós somos rainha e rei

Goimar Dantas
São Paulo
25-01-08

quarta-feira, janeiro 23, 2008

Crônica de uma morte (há muito) anunciada

R


Há poucos dias eu vi a cara da morte. Ela surgiu sob a forma de um sujeito alto, magro, enrugado, macilento, de aspecto carrancudo e opressor. Seu cabelo, muito preto, parecia ser peruca e não combinava em nada com a cara amarelada daquele indivíduo infame prostrado a poucos metros de onde eu estava.

A visão me causou horror, náuseas, tristeza, revolta, choro convulsivo. Precisei sair depressa dali, mas tive de ser amparada porque minhas pernas bambearam. Comecei a suar como nunca. Imediatamente, senti que o simples fato dele estar ali e ainda existir sugava a minha energia e roubava minhas forças como nenhum outro ser talvez jamais possa fazê-lo na face da Terra. Afinal, aquele resto de homem foi o que sobrou da criatura que, há 22 anos, matou meu pai covardemente, por motivo fútil, atirando nele pelas costas. Foi inevitável lembrar – depois de já estar mais calma – da saga do bruxinho Harry Potter – cuja vida é lutar para enfrentar o famigerado Valdemort, o “coisa-ruim” fictício que matou seus pais e que vive apenas “de” e “para” sugar a força do menino-bruxo.

Na minha realidade, distante do mundo dos bruxos e bruxas, o “Valdemort/coisa ruim” que tirou a vida de meu pai nunca foi preso. Tudo porque possui um álibi infalível em terras nacionais (principalmente no sertão brasileiro): dinheiro. Além disso, fugiu do flagrante, era réu-primário, não tinha antecedentes criminais e voltou três dias depois, com um bom advogado.

Muitos presenciaram o crime, ocorrido às 22 horas daquele domingo fatídico de 26 de janeiro de 1986. Na ocasião, a pracinha central da cidade de Japi, localizada no Rio Grande do Norte, a cerca de 130 quilômetros de Natal, ainda estava lotada. Porém, ninguém quis testemunhar contra o assassino. O motivo é simples: no sertão sem lei deste Brasil surreal, quem tem posses, terras, gado... Sempre foi, é e será intocável. E por isso, o “Valdemort do sertão” transita livremente. Tão livremente que, há cerca de duas semanas, parou o seu carrão na rua principal de Japi e desceu próximo do lugar onde eu, desafortunadamente, estava. Ele não me reconheceu, não me viu.

Mas isso não diminuiu o meu drama nem a minha dor. O fato é que eu não esperava ver aquele vilão à minha frente, assim, de repente e, confesso, nunca me preparei para esse dia. Achava, no fundo, que jamais iria acontecer. Japi é uma cidade minúscula e, até então, sempre que íamos até lá visitar minha vó e meus parentes (coisa que se repete a cada três, quatro anos) o “coisa-ruim” sumia, ficava ausente, escondia-se. Mas, o tempo passou e, dessa vez, ou ele não foi avisado da nossa presença ou, pior, perdeu de vez a vergonha.

Não foi difícil identificá-lo porque, por coincidência, me contaram, naquela mesma tarde, qual era o carro que o “Valdemort/coisa-ruim” possuía. E como só há duas pessoas em toda a cidade com um veículo daquela marca, não foi complicado deduzir... Vê-lo foi um choque. Um transtorno. Um desalento. Eu tinha apenas 13 anos quando tudo aconteceu e não o conhecia (ou pelo menos nunca tive memória nenhuma dele durante a minha infância).

As pessoas me dizem que ele está morre-não-morre... Doentíssimo... Há anos... Afirmam que tem uma coleção de enfermidades. Uma pior que a outra. É desprezado, não tem amigos, vive às traças e, vez ou outra, é acometido por tragédias pessoais, infortúnios, acidentes. A família sente vergonha dele e muita gente simplesmente não entende como o traste ainda está vivo... Mas eu, ora... Eu entendo. Sempre entendi. Para mim, a explicação reside em um provérbio popular bastante econômico nas palavras, mas de dimensões gigantescas no sentido: “Aqui se faz, aqui se paga”.

PS: a todos os que acompanham meu blog, peço desculpas pela falta de poesia deste texto. Mas, às vezes, na vida (e – graças aos céus – isso é muito raro...) não há espaço para ela.

Goimar Dantas
São Paulo, 23-01-08

domingo, janeiro 20, 2008

Hosana nas alturas




A rosa mística em tons suaves.
A rosa mística deste amor.
A cor nostálgica.
A essência grave.
A rosa é puro mistério em flor.
No seu jardim:
Terra sagrada!
Bem logo abaixo
Desse luar...
E no seu cheiro – tão perfumado
Que guarda a força
Do teu olhar.
O néctar doce
Dessas pupilas
Rosas perfeitas – a me guiar!
Pelo caminho
Que é precipício.
De onde anseio
por me lançar.

Goimar Dantas
Espaço aéreo brasileiro
Vôo Natal/São Paulo
16-01-08

segunda-feira, janeiro 07, 2008

Bandeiras para Manuel


A benção, meu bom Manuel!
A benção, meu nobre Senhor...
Aqui estou com os textos teus,
Rezando com grande fervor.
A benção, senhor Manuel!
Que o teu Recife é o esplendor
E o lindo São João da tua infância?
Fogueira a iluminar teu avô!
A benção, senhor Manuel!
Jogai as graças sobre mim!
Cobri-me com tua memória
Teus sonhos, desejos de outrora...
A benção, senhor Manuel!
Meu peito apertado... Sentindo
Teu desespero, teu pavor!
As noites de tosse e de medo...
Hemoptises, frio e terror...

A benção, senhor Manuel!
Os teus meninos carvoeiros,
Os sapos enfunando os papos,
Momento eterno num café...
E Irene – que é boa demais!
Poética, grito, sussurro!
O desencanto desses versos...
Fraquezas no pulmão do mundo!

A benção, senhor Manuel!
Com tua expressão ao sorrir...
E esse piano na face?
(Tocando um tango sem disfarce!)
E assim foi adiando a vida...
E assim foi postergando o amor...
Poeta das Cinzas das Horas,
Um mestre nas rimas da dor.

A benção, senhor Manuel!
Da Lira dos cinqüenta anos,
Do tom dessa Libertinagem,
Da vida abortando os seus sonhos...
Em tua Pasárgada mítica
Espero um dia te encontrar!
Pra então agradecer a benção
E meu grande amor revelar.
Em vida disseste que os corpos
Se entendem, mas, as almas, não!
E quero explicar-te, em sussurro,
Que tudo isso é confusão!
Engano do grande poeta...
Tristeza, mágoa, temor.
De se entregar de corpo e alma,
De acreditar no meu amor!
E aqui concluo essa oração,
Poema, canção e louvor,
Renovo meus votos e afirmo:
“Minh’alma
Se entende com tua,
Senhor!”

Goimar Dantas
Japi (sertão do Rio Grande do Norte)
07-01-2008