sexta-feira, abril 02, 2010

A partida



Assisti A partida (direção de Yojiro Takita, 2008), vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro de 2009, em meio à correria do final do ano passado. Desde então, vinha tentando encontrar um tempinho para comentar sobre ele aqui. Trata-se de um roteiro originalíssimo, apesar de tratar de um tema tão universal quanto a morte. Um assunto, a princípio, denso, mas que o filme consegue abordar com uma surpreendente mescla de humor e drama, pontuada com interpretações de sensibilidade rara.

Trama, diretor e elenco nos levam a refletir sobre a única certeza indiscutível que, um dia, nos tomará nos braços. E o que é, afinal, a morte? É possível enfrentá-la com dignidade e sabedoria? Como deve ocorrer esse rito de passagem? Com simplicidade máxima ou pompa e circunstância? É possível encontrar forças para sorrir quando a vida de uma pessoa que amamos é ceifada? Como irão reagir os que estão à volta daquele(a) que se foi? O que deixar como legado? E os assuntos não resolvidos? E as mágoas? De que modo esses e outros sentimentos continuarão existindo no tempo e no espaço? Se é que continuam...

O interessante da história é que para tratar desses temas, culturalmente vistos como profundos e filosóficos, roteiro e direção optaram por um caminho inusitado: antigos rituais fúnebres nipônicos. Na trama, um violoncelista recém-casado perde seu emprego em uma orquestra sinfônica e decide voltar para sua cidade de origem, onde sua falecida mãe lhe deixara, como herança, a casa onde viveram. Lá, ao interpretar de forma equivocada um anúncio de emprego publicado em jornal, o rapaz vai parar em uma agência funerária especializada, justamente, em belíssimos (acredite, são lindos) rituais fúnebres.

A necessidade econômica faz com que o jovem aceite o trabalho, a despeito de seus próprios medos e preconceitos. É quando tem início sua incrível jornada rumo ao processo de autoconhecimento, que ocorre paralela à descoberta de seu talento tão singular.

Vida e morte, superações e limitações, perdas e perdões, separações momentâneas e definitivas, alegria e tristeza, solidão e companhia são temas que permeiam esse filme que, com delicadeza oriental, é capaz de nos fazer rir e chorar. Muito mais do que o Oscar já conquistado, a obra merece – na minha modesta opinião – um lugar todo especial no coração da gente. Pra quem ainda não viu, fica a dica.

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