domingo, fevereiro 28, 2010

José Mindlin - uma inspiração



Sempre tive paixão por José Mindlin, o mais importante bibliófilo brasileiro, que nos deixou hoje, aos 95 anos. Ao longo da vida, Mindlin e a esposa Guita foram responsáveis por compor e preservar a maior biblioteca particular do Brasil. Parte dela, a famosa Brasiliana, composta apenas por títulos que se referem ao nosso país, em seus mais variados temas, foi recentemente doada para a Universidade de São Paulo (USP). Até porque a maior preocupação de Mindlin era a de que todos pudessem ter acesso às preciosidades que colecionou desde os 13 anos.

Mindlin era o nosso Borges, um homem cujo maior orgulho era estar rodeado de livros, sendo capaz de lutar 15 anos para encontrar e adquirir um exemplar da primeira edição de O Guarani, de José de Alencar. Espero que o autor de Ficções e O Aleph possa recebê-lo no além com a pompa e a circunstância que Mindlin merece: com livros e braços abertos.

sexta-feira, fevereiro 26, 2010

Sina




E mesmo sozinho
No poço sem fundo
O poeta ouve o eco do mundo.

Goimar Dantas
São Paulo
21-02-10

quarta-feira, fevereiro 24, 2010

Lisboa, Pessoa e a ciclovia

O Tejo from Abilio Vieira on Vimeo.


Video: Passeio de bicicleta pela margem norte do Tejo, nos arredores de Lisboa, Portugal.

Esse vídeo, que pesquei ontem no blog do Tas, me deu ainda mais vontade de conhecer Lisboa. Imaginem poder pedalar admirando o Tejo e, ao mesmo tempo, lendo Fernando Pessoa. Um dia eu vou.

O Guardador de Rebanhos

Alberto Caieiro (heterônimo do poeta Fernando Pessoa)


Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia,
Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia
Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia.

O Tejo tem grandes navios
E navega nele ainda,
Para aqueles que vêem em tudo o que lá não está,
A memória das naus.
O Tejo desce de Espanha
E o Tejo entra no mar em Portugal.
Toda a gente sabe isso.
Mas poucos sabem qual é o rio da minha aldeia
E para onde ele vai
E donde ele vem.
E por isso porque pertence a menos gente,
É mais livre e maior o rio da minha aldeia.

Pelo Tejo vai-se para o Mundo.
Para além do Tejo há a América
E a fortuna daqueles que a encontram.
Ninguém nunca pensou no que há para além
Do rio da minha aldeia.

O rio da minha aldeia não faz pensar em nada.
Quem está ao pé dele está só ao pé dele.

sexta-feira, fevereiro 19, 2010

Bagagem



E as recordações
da viagem
são o melhor da bagagem.



Como essas que vivemos em tarde inesquecível no Parque de Esculturas Ricardo Brennand, no Recife.



Eu em momento Mito de Sísifo, tentando alcançar o azul de Recife.



Tatá em transe verde e rosa, também no Parque de Esculturas Ricardo Brennand, no Recife.



Yuri de peito aberto, vendo a tarde engolir o mar da Praia de Boa Viagem.

quinta-feira, fevereiro 18, 2010

Poesia visual




Este vídeo traz fotos de Julia Jackson, mãe da escritora Virginia Wolf e sobrinha da incrível fotógrafa Julia Margaret Cameron, uma das pioneiras na arte de transpor poesia em imagens. Ter acesso ao trabalho de Cameron só foi possível graças às aulas do curso básico de fotografia e também de uma oficina sobre o tema, as quais concluí ano passado. Adoro a delicadeza dessas imagens, os tons e a capacidade de eternizarem um olhar e uma fisionomia tão expressivas.

Ainda sobre este vídeo: de acordo com a fotógrafa Márcia Alves, minha professora na oficina de fotografia, a linda trilha sonora é da banda Antony and Johnsons.

Em tempo: recomendo vivamente uma visita à galeria da Márcia lá no Flickr. É só clicar aqui.

Deleite-se!

sábado, fevereiro 13, 2010

Acadêmicos da escrita



O Carnaval tradicional é um estranhamento para mim. Todo ano é a mesma coisa: a Festa de Momo vem e me encontra concentrada, terminando algum texto cujo prazo de entrega está batendo às portas, com uma pressa, um ritmo, uma força e uma cadência muito superiores aos das baterias das escolas que se enfileiram nas avenidas Brasil afora.

E diferentemente desses lindos meninos que fotografei mês passado em Olinda, minha fantasia é costurada com linhas e tramas alfabéticas, acrescidas de acessórios de morfossintaxe e estilística. E ao invés de plumas, penas. Penas cuja função é extrair palavras do tinteiro do mundo.

Nos pés, um salto muito alto, não para sambar, mas para compensar minha estatura tão pequena frente à grandeza das coisas que preciso ver e registrar. Para quem escreve abrindo mão da purpurina em detrimento do lirismo, o Carnaval é sempre uma festa solitária, plena de alegria e beleza, mas também de medo e incerteza.

No bloco compacto do texto, ensaístas substituem passistas, romancistas compõem, sempre, a comissão de frente, poetas dominam, claro, os carros alegóricos, biógrafos fazem as vezes de puxadores de samba (porque em seu ofício tentam trazer à tona as melhores histórias, dando voz e visibilidade a enredos que estariam perdidos no tempo e no espaço, não fossem eles a juntá-los em única composição). E a flâmula dessa escola... Ora, essa quem porta só poderia mesmo ser ele: Bandeira, que se desloca da ala dos poetas para honrar o nome tão propício ao carnavalesco ofício.

Mas que ninguém se engane: na Acadêmicos da escrita, todo mundo pula numa solidão de dar dó. Um não pode ajudar o outro. Quem cai tem de se levantar sozinho. Quem perde o fôlego fica pra trás. Quem quebra o salto não participa mais.

E como este ano minha folia é sair no "Bloco da biografia", peço licença pra ir ali aquecer a voz e o verbo, porque já está chegando a hora de eu cantar/contar uma linda história.


Goimar Dantas
São Paulo
13 de fevereiro de 2010

sábado, fevereiro 06, 2010

A casa do poeta



Uma das tantas casas poéticas da Praça Cláudio Manuel, na cidade de Mariana, Minas Gerais.



A casa do poeta nem sempre tem janela,
Mas tem horizonte, de fronte.

A casa do poeta nem sempre tem relógio,
Mas tem o mistério do tempo, lá dentro.

A casa do poeta nem sempre tem quintal,
Mas tem o particular, onde se acha o universal.

A casa do poeta nem sempre tem quartos,
Mas tem um infinito de espaços pra sonhar.

A casa do poeta nem sempre tem varandas,
Mas é verdade que tem um sem fim de veredas .

A casa do poeta não tem banheiro,
Mas tem chuveiro de estrelas (e o vão do buraco negro).

A casa do poeta não é feita de cal nem cimento.
Mas sim de campo vasto, praia deserta, pó de sertão e vento.

Goimar Dantas
São Paulo
13-05-09

terça-feira, fevereiro 02, 2010

Oferenda



Neste dia dois de fevereiro, em que se rendem homenagens à Rainha do Mar, esta imagem é minha singela oferenda, captada na Praia de Boa Viagem, Recife, Pernambuco.

quinta-feira, janeiro 28, 2010

Marginal até debaixo d'água





E essa última pancada de chuva me lembrou:
há dias bombeiros procuram minha Poesia Marginal,
engolida pelo Rio Pinheiros.
Ao que parece, em meio a uma dessas tempestades de Verão,
ela se deixou levar por um córrego que a seduziu
com promessas de Mar.
Foi vista pela última vez agarrada a um pneu,
gritando por socorro em três idiomas,
próxima à Ponte Cidade Universitária,
Zona Oeste de São Paulo.
Poesia afogada em esgoto acadêmico...
Marginalíssima, até o fim!

Goimar Dantas
São Paulo
23-01-2010.

quarta-feira, janeiro 20, 2010

Recife e Olinda: crônica de uma viagem anunciada


Rua da Aurora.

Gostei do Recife, mas ainda prefiro aquela outra capital pernambucana, tão lindamente descrita nos poemas de Manuel Bandeira. A Rua da Aurora não é mais o cenário bucólico onde se ia pescar nas linhas de "Evocação do Recife". Longe disso. O segurança do Palácio das Princesas foi quem alertou: “Se vai à Rua da Aurora, tenha cuidado com a máquina fotográfica”. Triste. O medo das ruas onde antes se podia brincar, pescar, namorar debruçado sobre portões ou janelas. As mesmas ruas onde futuros poetas, ainda crianças, sorviam o sumo que, mais tarde, se transformaria em arte.


Oficina Brennand.

Mas a poesia ainda resiste na obra de gênios, como a do artista plástico Francisco Brennand – que se configurou como a maior descoberta desta viagem. É de Brennand uma Oficina gigantesca, misto de casa, museu e ateliê que o artista mantém a cerca de trinta quilômetros do centro. Mas sendo mago do barro, da argila, da cerâmica e dos pincéis, Brennand me captou mesmo foi pelos quadros de suas lindas meninas-mulheres: todas elas habitantes de becos ou de contos de fadas. Pena não poder fotografá-las.



Foi também no Recife que deparei com um pôr-do-sol lindíssimo, pintura inflamável prestes a explodir num gozo amarelo e febril. E em meio a ela, um jovem negro, magro e alto empunhava, soberano, sua singela vara de pescaria, completamente alheio ao quadro que surgia, magnífico, de suas mãos hábeis. As mesmas que, por sua vez, me fizeram pescar esse sonho.


O colorido fridakhaliano da Rua Bom Jesus

Perto dali, vi poesia nas cores dos edifícios e sobrados da Rua Bom Jesus, antiga Rua dos Judeus, onde está localizada a mais antiga sinagoga das américas. Um lugar que transpira história pelas suas paredes de tijolos antigos, poros de uma civilização palpável em sua mistura de massa, cal, suor e conhecimento vindos de povos holandeses, lusitanos e africanos. Para tocá-la, basta que o viajante feche os olhos, num exercício necessário e benéfico de desapego do presente.


Feliz por estar enredada à trama da sensibilidade pétrea e, ao mesmo tempo, fluida de João Cabral de Melo Neto.

É o que faço quando sigo rumo às cidades atemporais: deixo-me levar por séculos, enlaçada à aura de fantasmas boêmios: poetas, escritores, jornalistas, pintores, escultores, comerciantes e advogados que, não raro, lutaram pela liberdade em tempos idos. Espíritos livres cuja energia ainda flui pelos lugares onde viveram, amaram, morreram. Foi assim em Ouro Preto, Mariana, Recife e Olinda.


As casas arco-íris de Olinda.

Olinda, por sinal, é uma cidade eternizada cujo adjetivo mais propício para descrevê-la está em seu próprio nome: linda rainha multicor, especialista em folias carnavalescas. Em Olinda tudo tem a cor da alegria, assim como Flávio, o melhor guia encarnado que já conheci por minhas andanças. Flávio é o retrato de um Brasil que se reinventa, posto que não lhe dão oportunidades herdadas desde o berço. E contrariando previsões pessimistas, Flávio tornou-se mestre das histórias e da História, com "H" maiúsculo, de Olinda. Professor-doutor na arte de encantar, percorreu toda a cidade conosco, explicando pedra sobre pedra, tinta sobre tinta daquele universo tombado pela materialização arquitetônica do Arco-Íris.


Flávio sob o vestido da boneca "Menina de Pernambuco".

E Flávio citou datas, acontecimentos, personalidades. E demonstrou como se dança carregando os tradicionais bonecos gigantes no Carnaval de Olinda - ele mesmo exímio bailarino a segurar o peso de toda uma cultura sobre os ombros. E em meio a tudo isso, Flávio não tirou o sorriso do rosto. Nem nós, que tivemos a sorte de tê-lo ao nosso lado.


Bailarina nas ruas de Olinda


Vista da Praia de Boa Viagem.

Já a praia de Boa Viagem ficará em minha memória como uma bela fotografia: enquadramento mítico para ser apreciado apenas por sua estética, porque inacessível em sua realidade agressiva: cheia de pedras, algas e placas de "Cuidado com os tubarões". Definitivamente desaconselhada para crianças e covardes de marca maior - grupo no qual eu definitivamente me incluo. Também estivemos em Porto de Galinhas, mas por falta de tempo, este post terá de ficar pra depois. No mais, peço licença à elegante Constanza Pascolato, autora de uma frase que considero um deleite, tamanha a dose de verdade que encerra: "Gosto de viajar porque depois posso voltar pra casa".

É isso. Todos aqui de casa já estavam com saudades do nosso cantinho. Até a próxima!

sexta-feira, janeiro 08, 2010

Ouro Preto e Mariana



Seu eu tivesse tempo, daria pra escrever um livro sobre os dias em que passei em Ouro Preto e Mariana. São tantos assuntos, histórias, impressões e sentimentos que me recuso a esgotar tudo em poucas linhas. Este post será apenas o primeiro de uma série. Isso porque viajo novamente amanhã e é impossível me alongar agora. Só o Pouso do Chico Rei, onde nos hospedamos, rende um texto inteiro. Mas a despeito da minha correria, deixarei um gostinho do que foi a viagem por aqui, por meio de algumas poucas fotos e uma breve explicação sobre o Pouso.

Essa primeira imagem, por exemplo, traz a sala de café lá do Pouso do Chico Rei. Escolhi essa pousada a dedo porque é onde se hospedavam Vinicius de Moraes, Pablo Neruda e a poeta americana Elizabeth Bishop, dentre outros tantos ícones literários e artísticos, sempre que passavam por Ouro Preto. Todos eram amicíssimos das proprietárias, Lili e Ninita. Mais tarde, Bishop comprou uma casa na cidade, coisa que eu também faria se pudesse.

Todos os quartos recebem os nomes desses e de outros artistas, como o quarto Guignard, em homenagem ao grande pintor brasileiro, cuja obra pude conhecer melhor graças a essa viagem a Ouro Preto. Ficamos em dois quartos: primeiro, no Elizabeth Bishop, cujas instalações e a vista são lindas. Depois, no quarto Pablo Neruda.



Os espaços comuns aos hóspedes, como a sala de café e a de leitura, são lindamente decorados. Os móveis são "todos em madeira de lei", como diz Vinicius no poema dedicado ao lugar (para ler o samba e o poema que o autor de Vinicius compôs em tributo ao Pouso clique aqui). Tive a oportunidade de ter acesso ao antigo livro de hóspedes, que contém cartas e bilhetes do "poetinha" que, de diminuto, ao meu ver, não tem nada. Para mim ele sempre foi grande. Imenso. E o livro é uma verdadeira relíquia: além dos bilhetes e cartas de Vinicius, há textos e desenhos de Maysa, Guignard, Maria Bethânea e outras tantas celebridades brasileiras.

"O Pouso", bem como toda a cidade, recebe turistas do mundo todo. Durante os dias em que estivemos lá, o francês, o inglês e o italiano eram os idiomas mais falados nas ruas. Nunca pensei que o turismo internacional fosse algo tão comum em Ouro Preto. Na verdade, fiquei estupefata ao perceber que a maioria dos hóspedes que dividia o pouso conosco nesta semana eram franceses. Pra mim foi ótimo, uma vez que pude treinar um pouquinho o idioma, que anda bem enfurrajado desde o final do meu curso, há um ano e meio.



Essa é uma das vistas do quarto "Elizabeth Bishop". Aliás, Ouro Preto é farto em igrejas barrocas - uma mais linda que a outra. No domingo de manhã, todos os sinos repicam em uníssono: um espetáculo inesquecível - mesmo para quem gosta de dormir até tarde, como é o meu caso.



Tive medo de que as crianças achassem o passeio cansativo, chato. Afinal, achei que temas que remetem às igrejas, aos museus, à Arte Sacra e à maravilhosa história da Inconfidência Mineira são por demais áridos para pré-adolescentes do século 21. Mas eu estava errada. Amém. Eles amaram o tour, sobretudo o passeio de trem Maria Fumaça, para a cidade de Mariana. Yuri se sentiu o próprio Harry Potter indo para a famosa escola de Bruxaria e Magia Hogwart's. :)



Quanto a mim, fica difícil dizer o que mais gostei. Mas vou tentar elencar algumas coisas: O Museu da Inconfidência, a Casa dos Contos, os restaurantes, a Casa Guignard, a atmosfera literária e histórica que permeia tudo e todos na cidade, o bate-papo com a quase centenária Maria Bárbara de Lima, proprietária da casa em cujos fundos foi descoberta, na década de 40 do século passado, a famosa Mina do Chico Rei, personagem ímpar da história de Ouro Preto. Dona Bárbara, aliás, conheceu Cecília Meireles na época em que a escritora realizava pesquisas para escrever seu belíssimo "Romanceiro da Inconfidência".

O fato é que ainda preciso organizar as mais de mil fotos que tirei de Ouro Preto e Mariana. Em todo o caso, quem desejar matar um pouco da curiosidade pode clicar aqui, onde postei mais algumas.

Nos próximos dias, estarei fora novamente para mais um roteiro turístico com o qual sonho há anos. Até a volta!

quinta-feira, dezembro 31, 2009

Feliz Ano Novo!



Eu não estou no mar, ainda. Mas adoro essa foto, de 2006, e a considero perfeita para um dia em que tudo o que a gente quer é abraçar logo o futuro e as coisas boas que esperamos dele. Por enquanto, estou nas montanhas de Minas Gerais, no meu refúgio localizado em Santa Rita do Sapucaí, trabalhando muito na revisão da biografia do editor José Xavier Cortez, que concluí há uns 15 dias. Um trabalho enorme que ainda deve durar até fevereiro.

Sempre trago trabalho para as férias e não reclamo mais. Já me acostumei com essa correria todo o final/começo de ano. E se a correria e o cansaço são por conta de um livro novo, não tenho mesmo do que reclamar. Poder fazer o que se gosta é sorte. E das grandes. Além do mais, estou ao lado da minha família do coração, a do "Meu bem, meu Maurício" , que me aguenta já há uns 20 anos. O Natal passamos em São Paulo mesmo, dessa vez com minha família de sangue: mãe, irmã, sobrinha, cunhado, padastro e ainda os amigos do peito, pertencentes as famílias Mukai e Teramito. Foi tudo muito bom e divertido, como tem de ser.

Sábado caíremos na estrada novamente, com a bênção de Jack Kerouac, que era um viajante e tanto. E confesso que mal posso esperar porque visitarei cidades e estados com os quais venho sonhando há tempos. Em breve postarei fotos da aventura por aqui.

Espero que o ano de 2010 traga, sobretudo, muita saúde para todo mundo. Até porque é ela, a saúde, que nos permite conquistar todo o resto. Mas, nunca é demais querer que ela esteja acompanhada de paz, amor, alegria, felicidade, sucesso, trabalhos interessantes, viagens inesquecíveis.

São meus desejos, sinceros, para os poucos (e bons!) que sempre estão por aqui, há mais de três anos!



Em tempo: também estou feliz demais porque além das viagens, começarei o ano dando sequência à leitura de um romance maravilhoso, que ganhei do meu amigo Leo, é Antes do degelo, da escritora portuguesa Agustina Bessa-Luís (Guimarães Editores, 2004, Lisboa, 366 páginas). Comecei a leitura há dois dias e estou completamente alucinada com a escrita monumental de Agustina. Pena eu só ter tempo de lê-lo antes de dormir, uns poucos minutos. Mas, enfim, é um deleite que eu vou sorvendo aos poucos.

Em tempo II: deixo vocês com uma das minhas imagens preferidas deste Natal: minha sobrinha Verônica, linda, na varanda lá de casa. Um 2010 sensacional pra todo mundo!

quarta-feira, dezembro 23, 2009

Balanço




O fim do ano, do ciclo.
O começo do outro, o viço.
O futuro logo ali: a um passo.
Hora de rever os nós, os laços.
A vida é o ir e vir – e que venha!
Tema certeiro no peito: poema.
Translúcido vão do avesso: contexto.
Herança, fortuna, história: memória.
Um desenho sem compasso: abraço.
Um fluxo ou um lampejo? Um beijo.
Um mote de um bom roteiro: desejo.
O que vale é o infinito: de um dito.
E bom mesmo é navegar: no olhar.
Sem se esquecer do horizonte: de fronte.
E ter por guia o destino: caminho.
Faça chuva ou faça sol.
Sob a Lua ou sobre o Mar.
E a bênção se pede a quem?
A Deus, ao Buda, à Iemanjá,
Ao Cristo, a quem mais vier,
Ao profeta Maomé,
Aos ancestrais, aos Xamãs.
Às esperanças mais vãs.
De certo mesmo só há:
o hoje, o agora, o já.


Goimar Dantas
São Paulo,
23-12-09

sexta-feira, dezembro 18, 2009

Desejo



Queria escrever uma poesia tão linda que só o coração ousaria pulsá-la.
Poesia fluindo na veia da palavra:
vermelha, profunda, dilatada.

Goimar Dantas
São Paulo
18-12-2009

domingo, dezembro 13, 2009

Oração para Adélia Prado



Adélia Prado, minha poeta preferida, faz aniversário hoje, 13 de dezembro. Mas, como acontece todos os dias, é ela quem me brinda com a sabedoria de suas palavras. E se tenho o espírito robusto, corado, saudável, devo em grande parte ao alimento magistral que é a sua poética.

Ainda pulsa em meu coração o impacto sentido ao ler "O poeta ficou cansado", poema de sua autoria, especialmente no trecho: “Ó Deus, / me deixa trabalhar na cozinha, / nem vendedor nem escrivão, / me deixa fazer Teu pão. / Filha, diz-me o Senhor, / eu só como palavras.”

Assim como Manuel Bandeira, Drummond, Fernando Pessoa e Augusto dos Anjos, Adélia me revelou a força da poesia em suas nuances mais brutas e lapidares. A palavra como pão, alimento, epifania, começo, meio e fim. A palavra como instrumento do sagrado e do profano, como expressão mística e fé.

Desde então, tive certeza: minha religião é a poesia. Minha Igreja é o livro. Só a palavra me salva, me redime, me oferece a transcendência. Pecado é não escrever, não ler, não querer conhecer. Paraíso é o texto capaz de tocar o coração do outro. Inferno é ser malsucedido nessa intenção.

No Reino das Palavras entendi que Adélia é Santa e eu, discípula: sedenta de verbo e metáfora - que são a hóstia e o vinho dos poetas. E assim, tudo o que peço é que após cada comunhão eu receba, iluminada, o divino e o altíssimo, o Deus do dito e não-dito que se chama Inspiração. Amém.

segunda-feira, dezembro 07, 2009

Meu campeão


Meu campeão, lindão... Já no final do exame, com a faixa verde e a medalha.

No último sábado, dia 05, Yuri encheu a família de orgulho. Conquistou a faixa verde no Karatê (agora faltam as faixas marrom ponta branca e marrom, antes de ele conseguir a cobiçada faixa preta). O exame começou às 10 horas da manhã e seguiu até às 13h. Logo de cara, Yuri iniciou a bateria de testes com um aquecimento de guerra: 500 polichinelos, 30 flexões, 150 abdominais e não sei mais quantos exercícios.


Yuri apresentando o Kata (espécie de coreografia com os movimentos característicos de cada uma das faixas).

Depois do Kata, cada aluno tinha de colaborar com o exame do outro, servindo de oponente em inúmeras lutas, de modo que todos pudessem mostrar os golpes que aprenderam.


Yuri voando, digo, golpeando com as pernas.

Quanto mais avançado o aluno, mais longo é o processo de avaliação. Por isso, Yuri foi um dos últimos a ser avaliados. Mesmo estando cansadíssimo, precisou lutar mais nove vezes.


Como sempre, não escapou de lutar com o seu professor que se chama... Iuri! Nessa foto péssima de tão tremida, professor e aluno lutam. Enquanto isso, "meu Yuri" recebia incentivos e dicas de Jacó, outro professor da turma, que gritava: "Vai, Yuri! Use o golpe "x"!Defenda o rosto etc".

Meu filho entrou no Karatê superpequeno, com seis anos e, desde então, tem aulas com Iuri, que vem acompanhando seu desenvolvimento de perto. No começo, só queria saber de correr e brincar durante as aulas. Mas, agora, que está adolescente, tem arrasado e até ganhou uma medalha pelo desempenho nas aulas. Muito fofo.


Yuri com seis anos, ainda faixa branca, no dia do exame que lhe daria a faixa laranja.

Tirei centenas de fotos das lutas propriamente ditas, mas ficaram péssimas: primeiro porque eu tremia feito vara verde, segurando o choro, tamanha a tensão por ver meu filho passando por aquele verdadeiro ritual de sacrifício típico dos exames de lutas marciais. Depois porque, ao invés de deixar a máquina no automático, fui dar uma de
gostosa e usar fotometria(!)

E usar fotometria em esporte, com todo mundo se mexendo o tempo todo, saindo do foco, pulando... É pra quem pode. Pra quem tem muita técnica e muitos anos de estrada na fotografia. E eu, que acabo de terminar o curso básico, paguei o maior mico.

Mas, como dizem: vivendo e aprendendo, né?


Para finalizar, vemos Yuri e seu mestre Iuri, na foto clássica pós-exame de faixa.

Orgulho da mamãe!

terça-feira, dezembro 01, 2009

Lolita Cravo e Canela



Foram mais de 600 clicks para chegar as 10 fotos exigidas para a exposição de "Lolita Cravo e Canela", meu projeto final no Curso Básico de Fotografia, realizado durante quatro meses no Senac Lapa Scipião, em São Paulo. Em meio ao processo de escrita da biografia do editor José Xavier Cortez, que tem me tomado no mínimo 8 horas por dia, a experiência de bancar a fotógrafa foi, por assim dizer, tão maravilhosa quanto desgastante.

Para chegar a esse número superlativo de clicks, fiz cinco ensaios fotográficos com minha filha, Tailane(Tatá) Morena, de longe minha modelo favorita. A cada sessão de fotos, Tatá agia do mesmo modo, sempre me oferecendo doses generosas de paciência, cumplicidade e, por que não dizer, profissionalismo. Todas as sessões foram realizados à noite ou nos finais de semana e, mesmo assim, Tatá estava sempre pronta a sugerir poses, criticar, dar sugestões (mesmo após enfrentar cinco horas de aula, curso de dança, coral, lição de casa).

Devo tudo a ela, à sua beleza exótica e à sua infinita capacidade de fazer com que eu me reinvente sempre. As 10 fotos selecionadas para o projeto já estão disponíveis na minha galeria do Flickr. Para vê-las basta clicar aqui. Lembre-se de que, chegando lá, você pode clicar sobre as fotos para vê-las ampliadas.


Essa foi uma que ficou de fora da seleção final.

No decorrer dos dias, vou inserir mais algumas fotos no Flickr, uma vez que, por falta de espaço, acabaram ficando fora da edição final do projeto (como essa aí de cima, que eu adoro). Até porque cada aluno tem direito a inserir, no máximo, 10 fotos na exposição, que será realizada na própria escola, a partir de janeiro.

Juntamente com a professora Rita Domiciano, todos os alunos contribuíram com opiniões para a escolha das fotos do grupo. Foi um sufoco chegar a um número tão reduzido, tamanha a qualidade e variedade de temas da turma. Cada aluno fazia sua própria "primeira edição" e levava cerca de 60 fotos para a turma analisar. Um processo de muito aprendizado, sem dúvida.

Abaixo, mais uma foto escolhida para o projeto final, seguida de um pequeno trecho extraído da fundamentação teórica deste trabalho:



"O ensaio fotográfico Lolita Cravo e Canela pretende render homenagem ao romance Lolita, obra-prima do russo Vladimir Nabokov. Lançado em 1955, o livro é considerado um dos textos fundamentais da literatura do século XX.

A ideia é oferecer um passeio fotográfico pelo romance nobokoviano por meio da releitura imagética de sua protagonista, cuja plástica foi originalmente criada para atender ao ideal clássico de beleza norte-americano: uma ninfeta loira, de olhos claros e cabelos lisos. Neste ensaio, a ideia foi brincar com esse estereótipo, apresentando uma Lolita, por assim dizer, tipicamente brasileira, fruto de miscigenação entre portugueses, negros e índios. Uma jovem que bem poderia, daqui a alguns anos, servir de intérprete a outra personagem forte, mas dessa vez, da literatura nacional: a heroína Gabriela Cravo e Canela, do romance homônimo de Jorge Amado.

Utilizamos como referência as cenas clássicas presentes no romance e que, por sua vez, também serviram de inspiração aos dois cineastas que levaram o livro às telas. Stanley Kubrick, em 1962, foi o primeiro a fazê-lo, optando pela filmagem em P&B, o que propiciou uma abordagem imagética mais clássica, elegante e, nem por isso, menos perturbadora. Já Adrian Lyne, na refilmagem de 1997, em cores, explorou um lado mais solar da protagonista, valorizando, principalmente, as impressões recebidas pelos leitores na primeira metade do romance de Nabokov. A nosso ver, os dois pontos de vista são corretos e complementares, de modo que vimos como interessante a possibilidade de unir as duas propostas: fotos em cores e em P&B.

Para concretizar este ensaio tomamos como base as seguintes obras:

1.Lolita, Vladimir Nabokov, Companhia das Letras, 1998.
2.Lolita, Stanley Kubrick, 1962, EUA.
3.Lolita, Adrian Lyne, 1997, EUA.
4.Alice in Wonderland, Vogue USA, december 2003 (Annie Leibovitz and Natalia Vadinova).

segunda-feira, novembro 23, 2009

Senso sem direção




Eu me desdobro: origâmica.
E me azulejo: cerâmica.
Escorro em lava: vulcânica – sobre você.

E então me vejo: reflexo.
Um Rio Tejo em seu fluxo,
Cujo desejo (profundo) é se misturar ao mar.

Um oceano nostálgico
De águas salgadas, febris.
E correntezas incertas,
Ondas gigantes e hostis.

E ainda assim eu me entrego,
Submergindo, me enredo:
Sereia plena, feliz...

Espécie de néctar, fruta:
Pra sorver absoluta
Na boca da tua noite.

Sumo pra suar em febre
E entranhar em sua pele:
esse horizonte,
fronteira.
Penhasco,
abismo,
ladeira.
Avesso do meu direito,
onde espero me perder.


Goimar Dantas
São Paulo
27-08-09

quarta-feira, novembro 18, 2009

A hora e a vez de José Xavier Cortez



O editor potiguar José Xavier Cortez, há 43 anos radicado em São Paulo, faz aniversário hoje e um dos presentes que recebeu foi esse trailer do documentário O semeador de livros, em fase final de edição. O roteiro, que traz à tona a trajetória cinematográfica da vida de Cortez, é de Heloisa Dias Bezerra e Wagner Bezerra, que também assina a direção.

Além desse documentário e da biografia, que escrevo em co-autoria com a socióloga Teresa Sales, Cortez será, em 2010, a estrela maior das comemorações dos 30 anos da tradicional Cortez Editora, criada por ele e especializada na publicação de livros acadêmicos, muitos deles voltados às áreas de educação e serviço social.

Haja coração, hein, seu Zé di Mizaé!?

segunda-feira, novembro 16, 2009

Meu bem, meu Mau(rício)


Meu bem, meu "Mau", que faz aniversário hoje, recebendo pela sétima vez consecutiva, em nome do Senac, o prêmio Top of Mind.



Ele não precisa ler muito, pois sabe tudo.
Já eu preciso ler tudo, pois não sei nada.
Ele é introspectivo, preza o silêncio e a reflexão.
E eu sou filha da história, Sherazade de formação.
Ele luta Kung fu, enquanto eu pratico Yoga.
Ele se expõe em planilhas e eu em versos e prosa.

Ele sabe contar, calcular a porcentagem!
E eu? Ora, eu sei narrar, escrever, falar bobagem.
Ele prefere o campo e eu, se sonho, é com o mar.
Ele dorme no avião(!) e eu só faço rezar.

Ele se impõe no olhar, eu me apóio na oratória.
Ele é rei da concisão e eu da dissertação.
Ele comanda 30 e eu não chefio ninguém.
Ele enxerga o hoje e eu só vejo o além.

Na emergência, ele é mansidão – já eu viro tempestade.
No dia a dia, sou mais calma, ele grita por bobagem.
Ele dirige em São Paulo, em Minas, nas rotas do litoral.
Eu me perco no bairro, a pé, indo à banca de jornal.

Ele negocia o mundo, multiplica, contrata, demite, produz!
E eu? Eu fico em casa escrevendo, bastando um facho de luz.
Ele usa terno e gravata, gel no cabelo, perfume importado.
Eu uso saia de algodão, com renda, florzinha e babado.

Ele é “João Balalão, senhor capitão, capote vermelho, chapéu de galão, espada na cinta, ginete na mão, João Balalão, Balalão, Balalão”.
E eu sou “Senhora Dona Sanja, faz favor de entrar na roda, diga um verso bem bonito, diga adeus e vá-se embora!”.

No jogo ele grita “Goooooooooool”! E eu sequer presto atenção.
Na música ele desafina e eu sou pleno pulmão.
No amor ele é puro instinto, força física, paixão!
E eu pulso na poesia, romantismo e coração.

Ele é a minha lógica, minha dose de razão.
Ele é o mundo lá fora, puro poder, explosão!
E eu? Meu Deus... O que eu sou?
Só uma moça do sertão.

Goimar Dantas
São Paulo
Setembro/2009