quarta-feira, outubro 15, 2008

À minha Sherazade, com carinho





Aos 10 anos de idade, uma de minhas redações foi selecionada como a melhor da classe. Nessa ocasião, minha professora Thaís achou por bem gastar uns cinco minutos de sua vida tecendo elogios sobre minha capacidade de contar histórias.

Eu não cabia em mim de felicidade... E jamais vou esquecer a sensação de ver meu texto sendo reproduzido na lousa por uma de minhas amiguinhas (a que tinha a letra mais bonita), de modo que todos pudessem copiar a tal história.

Thaís foi a professora mais doce e também a mais interessada em nos fazer amantes dos livros para sempre. Todos os dias, pedia pra gente guardar o material 15 minutos antes de bater o sinal e se dirigia para porta da classe. Encostava-se ali numa atitude relaxada, abria um livro e nos contava uma história. Simples assim.

Era um momento mágico para todos nós. Grudávamos os olhos nela para melhor absorver seus gestos e reações enquanto narrava fábulas e lendas... Segura de seu método, minha Sherazade tinha sempre a inflexão de voz perfeita para cada personagem e situação descrita nas páginas à sua frente.

Aquelas foram as minhas primeiras viagens literárias uma vez que, por motivos vários, o hábito da leitura não existia em minha casa. Conduzida pela voz de Thaís, visitei florestas encantadas, habitats de fadas, bruxas, gnomos... Fui ao Egito e também ao Oriente Médio. Usei jangadas, trens, estradas, balões. Thaís era assim, não medida esforços para nos mostrar um mundo que transcendia os muros da Escola Estadual de Primeiro Grau Jayme João Olcese, em Cubatão.

Lembro perfeitamente de seu rosto, de seus cabelos cacheados, seu sorriso, seu modo de se vestir. Adorava quando ela vinha de macacão jeans. Combinava perfeitamente com seu estilo pouco formal. Impossível também é esquecer seus olhos grandes e castanhos nos fitando sempre com tanta atenção...

Infelizmente, a vida fez com que eu perdesse de vista a minha professora Thaís. E, provavelmente, ela nem desconfia que ao escolher minha redação e elogiar meus dotes de “contadora de histórias” de modo tão especial, acabou definindo meu destino para sempre... Naquele momento eu soube que passaria a vida escrevendo. Afinal – pensava eu – tudo o que queria era sentir aquela felicidade de novo. A felicidade de se fazer o que ama e, ainda por cima, tocar o coração das pessoas com isso.

Thaís foi a primeira a me apontar o caminho. E sempre terá lugar cativo na minha memória e no meu coração. Neste Dia dos Professores, tudo o que queria era poder dizer isso a ela...


9 comentários:

deddalus disse...

De cabo a rabo, muito bom !
Parabéns.

poesia potiguar disse...

Oi, Dedé!

Muito obrigada!! Elogio vindo de um "expert" como você vale o dobro!

beijão!

Cássia disse...

Goi,
vc tem essa redação??? Seria legal que postasse!!!

poesia potiguar disse...

Oi, Cá!

Que nada, menina! Ficou em algum lugar do passado...rs!

A única memória que tenho sobre o tema é de que se tratava da vida de uma gatinha e suas aventuras pelo mundo animal... rs!

Lembro também que ao terminar de copiar a redação na lousa, minha amiga, (a tal assistente da professora que tinha a letra bonita) fez a "ilustração" da personagem principal e desenhou a gatinha ao final do texto, com giz amarelo... Fofa, não?

Bjs!!

Nana disse...

Lindo!
Obrigada pela visita, querida!
Beijo enorme

Júbilo Jacobino disse...

Bem, eu também aos 13 anos fui tirado do limbo pela minha querida professora Dona Carmem (Carmem Veiga Veiga). Como todo moleque eu recebia por minhas redações desmemoráveis "R-", quando num belo dia resolvi realmente escrever alguma coisa minha, verdadeira e contundente. Falei sobre a influência maléfica que o baixo padrão da programação da televisão da época causava sobre minha desamparada cabecinha ... Fui agraciado com um honroso "R+" (regular mais) e também tive o prazer dela ser lida em voz alta para toda a classe. Ambos sabíamos que não se tratava de um grande texto, mas também sabíamos que era o meu melhor texto e que por interesse da professora e um pouco de carisma da minha parte, merecia ser destacado. Mal sabia ela que essa seria a mais doce recordação daquele meu sofredio ginásio, já soterrado pela poeira do tempo, porém ainda ávido por justiça e respeito, sim, porque eu e todos da minha época éramos filhos da malfadada ditadura.
Daí meu irmão mais velho esqueceu um PASQUIM sobre sua cama e eu que já sabia até escrever aprendi também a ler.
Um beijo a todas as professoras e professores que talvez nem saibam o poder que têm de acordar gigantes e de fazer dormirem as bestas.

poesia potiguar disse...

Oi, Júbilo!!

Que linda a sua história! Obrigada por compartilhá-la com a gente. É realmente incrível o poder de um bom professor em sala de aula (e dos professores que encontramos na vida também...).

As memórias que ficam são muito intensas e grande parte delas funciona como um divisor de águas em nossas vidas.

Um beijão pra você e até o próximo sarau/cordel/show!

Juliana Ferraz disse...

Olá, Giomar.
Sou a amiga da Cássia que também faz as camisetas. Li no blog dela que você acompanha o meu e achei um barato. Sempre via seus comentários pra ela e como fui mencionada em um deles fiquei ainda mais curiosa pra conhecer você e seu blog. E adorei!!
Este aqui foi o post que chamou minha atenção em especial. Eu não tive UMA Thais, mas várias. Escrever também é uma grande paixão (mas não sou talentosa como você! hehe)
Fiquei muito curiosa pra ler esta sua redação! Publica!!
Outro dia te conto uma história que me deixou triste sobre uma redação minha durante minha infância...
Beijocas grandes, nova amiga! ; )

poesia potiguar disse...

Oi, Ju!!

Que bom receber sua visita por aqui!! Não tenho mais a redação, infelizmente! Quem me dera...
Mas obrigada pelo comentário especial e seja bem-vinda a esse cantinho feito pra compartilhar histórias! As suas também serão sempre muito bem recebidas por aqui!

Beijos!!